Horta’s benchmark as a tool of Nursing teaching-learning: assistential convergent research

Referencial de Horta como instrumento de ensino-aprendizagem em Enfermagem: pesquisa convergente assistencial

 Juliana Helena Montezeli1, Kriscie Kriscianne Venturi1, Aida Maris Peres1, Liliana Maria Labronici1, Mariluci Alves Maftum1, Lillian Daisy Gonçalves Wolff1 

1 Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil 

ABSTRACT: This is a qualitative research supported by the assistencial convergent modality that aimed to use Wanda Horta’s referential with fifteen nursing students during Clinical Education in Semiology and Semiotchnical at a private college of Curitiba, and to verify the perception of these students concerning this trajectory.  The students considered that this practice provided a vision of the patient as a whole, culminating in a theory-practice approach in the related disciplines and facilitating the care humanization.  In addition, they emphasize that the systematization of nursing assistance based on Horta’s benchmark reveals the importance of the nurse’s work, since it outlines the knowledge of this category with greater precision, increasing the professional’s performance perception and improving the quality of the nursing assistance.

KEY WORDS: Nursing. Education, Nursing. Nursing Process. Patient Care Planning  

RESUMO: Trata-se de uma pesquisa qualitativa sustentada pela modalidade convergente assistencial que objetivou utilizar o referencial de Wanda Horta com quinze discentes de enfermagem durante o Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica de uma faculdade privada de Curitiba e verificar a percepção dos mesmos no concernente a esta trajetória. Os resultados mostraram que os sujeitos consideram que tal prática proporcionou a visão do paciente em sua totalidade, culminado em uma aproximação teórico-prática na disciplina em questão e facilitando a humanização do cuidado. Além disso, salientam que a sistematização da assistência de enfermagem alicerçada no referencial de Horta desvela a valorização do trabalho do enfermeiro, uma vez que delineia com maior precisão as fronteiras de conhecimento dessa categoria, colaborando para o aumento da visibilidade de atuação deste profissional e para a melhoria da qualidade da assistência de enfermagem.

Palavras chave: Enfermagem. Educação em Enfermagem. Processos de Enfermagem. Planejamento de assistência ao paciente. 

Introdução

Almejando tornar a Enfermagem uma disciplina emancipada e com bases científicas sólidas, diversas tentativas vêm sendo realizadas para ordenar o trabalho da profissão ao longo dos tempos e desenvolver um conhecimento específico da mesma. Nesse sentido, a construção de saberes próprios pode ser facilitada por meio do uso de teorias de enfermagem com o intuito da fundamentação do cuidado, e esta prática pode ser observada desde os tempos nightingaleanos, em que Florence marca o início da trajetória de diferenciação entre as ações do enfermeiro e as do médico na busca da construção de uma identidade profissional própria1.

Assim, o Processo de Enfermagem como instrumento para a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) representa o mecanismo pelo qual os conhecimentos próprios da profissão são aplicados na prática1, correspondendo a uma atividade privativa do enfermeiro2 e que norteia as atividades de toda a equipe de Enfermagem.

O pioneirismo no Brasil da proposição de uma metodologia assistencial deu-se com Wanda de Aguiar Horta e desde então, vários esforços destinam-se para desenvolver o Processo de Enfermagem como inerente à prática do enfermeiro, porém, percebe-se que sua utilização ainda é incipiente3. Em convergência, tem-se que, a despeito de uma sensível mudança percebida nas últimas décadas do século XX, o uso desse processo de maneira deliberada continua não sendo unanimidade no âmbito da profissão4.

Esta realidade, em parte, emerge em decorrência da trajetória de formação do enfermeiro. A hegemonia do modelo biomédico, ainda empregado nas escolas de ensino superior faz com que os estudantes utilizem o Processo de Enfermagem de forma fragmentada e não reflexiva, sem relacionar os motivos ou razões que causam as respostas dos clientes a determinadas situações. Dessa maneira, ao ingressar no mercado de trabalho, os enfermeiros continuam a reproduzir o modelo biomédico aprendido na graduação e enfatizado por aqueles que já atuam na área há algum tempo, apesar de reconhecerem a importância de um cuidar sistematizado3.

Notam-se, assim, profundas divergências entre o discurso teórico dos relatos científicos e a prática educativa e profissional do enfermeiro, enfatizando a existência de desarticulação entre o saber, o fazer e o legislar na enfermagem5. Contudo, apesar desse descompasso, salienta-se que o Processo de Enfermagem ainda corresponde ao instrumento mais recomendado para a melhoria do cuidado e da assistência em enfermagem.

Retomando a questão do ensino nesse contexto, percebe-se que as aulas práticas na graduação enfatizam as habilidades técnicas, tanto por parte dos docentes quanto dos discentes, em detrimento do levantamento dos problemas de Enfermagem do paciente e planejamento da assistência, o que limita o cuidado a ações isoladas6.

            Em congruência com os achados literários, a vivência como docentes da disciplina de Semiologia e Semiotécnica teórica e prática em uma instituição de ensino superior privada de Curitiba-PR, aponta para a necessidade de busca de estratégias facilitadoras à ruptura do paradigma imposto pelo modelo biomédico.

Sobretudo na disciplina em questão, na qual o aspecto técnico possui importância substancial, o desenvolvimento do Processo de Enfermagem tende a permanecer em segundo plano. Dessa maneira, ao avançar pelas demais disciplinas, o aluno encontra dificuldades para desenvolver uma assistência sistematizada, já que iniciou sua prática ancorada na base mecanicista desse modelo.

Tal percepção também foi tida pelos docentes dos períodos vindouros ao Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica e foi pauta da Semana Pedagógica do Curso de Enfermagem em julho de 2008 na Instituição. Esse fato reforçou a necessidade de mudança na abordagem do processo ensino-aprendizagem nessa disciplina e originou o presente estudo.

No entanto, para implementar o Processo de Enfermagem, faz mister a adoção de um referencial teórico-filosófico representado por uma Teoria de Enfermagem. Assim, optou-se pelo referencial de Horta7 para sustentar a realização do trabalho, o qual se norteia pela seguinte questão: Como a utilização do referencial de Horta pode influenciar o processo ensino-aprendizagem em Semiologia e Semiotécnica?

Para alcançar a resposta ao citado problema de pesquisa, traçaram-se como objetivos: utilizar o Processo de Enfermagem com os discentes durante o Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica e verificar a percepção dos discentes acerca do uso do Processo de Enfermagem durante o Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica.

 Referencial teórico

Para prestar cuidado é preciso articular o fazer e o pensar, criando um caminho para uma prática científica da Enfermagem presente e futura8. Nesse aspecto, a escolha de uma Teoria de Enfermagem mostra-se fundamental para nortear a prática do enfermeiro desde a sua formação. Sendo assim, escolheu-se Wanda Horta7 como referencial teórico para sustentar esse estudo.

A produção científica de Horta salienta seu interesse sobre as bases teórico-filosóficas de Enfermagem, vislumbrando a construção de um saber científico unificado da profissão. Seus esforços culminaram na construção de uma teoria e o desenvolvimento de uma metodologia de trabalho para a Enfermagem1.

As bases de Horta7 encontram eco nas Leis do equilíbrio, da adaptação e do holismo e na Teoria da Motivação Humana de Maslow, bem como nas necessidades humanas básicas de João Mohana.

      Essa teoria apresenta como foco central levar o ser humano ao estado de equilíbrio pelo atendimento de suas necessidades humanas básicas. Para tal, considera o enfermeiro como agente da interação entre ele e o paciente, em um processo de relação pessoa-pessoa9. Assim, Horta refere “a enfermagem como parte integrante da equipe de saúde que implementa estados de equilíbrio, previne estados de desequilíbrio e reverte desequilíbrios em equilíbrio pela assistência ao ser humano no atendimento de suas necessidades básicas e procura sempre reconduzi-lo à situações de equilíbrio dinâmico no tempo e espaço”7:29.

Para tal, é preciso assistir em enfermagem, ou seja, fazer pelo ser humano aquilo que ele não pode fazer por si mesmo; ajudar ou auxiliar parcialmente o impossibilitado de se autocuidar; orientar ou ensinar, supervisionar e encaminhar. Surge daí a sigla FAOSE, pois assistir em enfermagem significa fazer, ajudar, orientar, supervisionar e encaminhar7.

Como proposições, a teoria de Horta7 identifica as funções do enfermeiro em três áreas. A primeira é a Específica, que consiste em assistir ao ser humano no atendimento de suas necessidades básicas e ensinar o autocuidado; a segunda é a de Interdependência, buscando manter, promover e recuperar a saúde dos indivíduos, e por fim, a terceira, que corresponde à função Social, articulando ensino, pesquisa, administração, responsabilidade legal e participação na associação de classe.

Os princípios dessa teoria baseiam-se no respeito à unicidade, autenticidade e individualidade do ser humano; no cuidado de enfermagem preventivo, curativo e de reabilitação; no ser humano como membro de família e comunidade, elemento participante ativo no seu autocuidado e na relação entre os conceitos ser humano, ambiente e enfermagem. Além disso, considera o ambiente como todo o universo que se mantém por processos de equilíbrio dinâmico entre os seus seres e por leis gerais que regem os fenômenos universais7.

Como conceitos relacionados, a teórica apresenta as Necessidades Humanas Básicas, de maneira hierarquizada, dentre as quais as da base são as fisiológicas, que compreendem: oxigenação, eliminação, nutrição, hidratação, integridade cutâneo-mucosa e sexualidade. A segunda necessidade humana básica é a segurança que visa manter um ambiente ordenado e sem ameaça ao paciente. Nestes níveis estão as necessidades de amor, de auto-estima, de auto-realização e a última refere-se a um estado no qual o indivíduo está aberto, feliz, realizado, espontâneo, criativo e receptivo1.

O sistema de classificação das necessidades humanas básicas adotado por Horta foi o de João Mohana que as dividiu em: psicobiológicas (oxigenação, hidratação, nutrição, eliminação, motilidade, integridade física, regulação vascular, neurológica e hormonal e outras), psicossociais (amor, segurança, gregária, lazer, atenção, auto-estima, auto-realização, entre outras) e psicoespirituais (religiosa e ética). É importante salientar que todas se apresentam inter-relacionadas pelo fato de que fazem parte de um mesmo ser humano. Dessa forma, podem sofrer alterações, em maior ou menor intensidade, quando outra necessidade se manifesta7.

A utilização desse modelo é viabilizada por meio do Processo de Enfermagem definido por Horta7:35 como “dinâmica das ações sistematizadas e inter-relacionadas, visando à assistência ao ser humano. Caracteriza-se pelo inter-relacionamento e dinamismo de suas fases ou passos”, sendo eles histórico, diagnóstico, plano assistencial, prescrição, evolução e prognóstico.

O primeiro passo é o levantamento dos dados subjetivos (entrevista) e dos dados objetivos (exame físico) do paciente, para identificar seus problemas. Cabe aqui pontuar que quando a necessidade se manifesta, o faz por sinais e sintomas que em enfermagem denominam-se problemas de enfermagem. Estes são definidos como situações ou condições advindas dos desequilíbrios das necessidades básicas do indivíduo ou grupo, que exigem assistência profissional do enfermeiro7.

      A minuciosa avaliação desses dados determina a identificação das necessidades do paciente e o seu grau de dependência, levando à segunda fase denominada Diagnóstico de Enfermagem.

O terceiro passo: é a determinação global da assistência de enfermagem que o ser humano deve receber diante do diagnóstico estabelecido, sendo este sistematizado (execução de cuidados a fazer, orientar, ajudar, supervisionar e encaminhar). Já o quarto passo é a implementação do plano assistencial diário, que coordena a ação da equipe de enfermagem na execução dos cuidados ao atendimento das necessidades básicas e específicas do ser humano, cuidado e avaliado sempre.

Por fim, tem-se o quinto passo que engloba o relato diário das mudanças sucessivas que ocorrem no indivíduo enquanto estiver sob assistência profissional, por meio da qual é possível avaliar a resposta do ser humano à assistência de enfermagem implementada7.

Metodologia

A metodologia utilizada para este estudo foi a Pesquisa Convergente Assistencial (PCA), que se compromete diretamente com a melhoria do contexto pesquisado10.

Assim, a coerência na escolha dessa metodologia embasa-se por atender aos critérios utilizados pela mesma, conforme apresentado na seqüência.

O tema a ser pesquisado emerge do desenvolvimento da assistência: foi observado pelos docentes dos períodos subseqüentes ao Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica que os discentes apresentavam dificuldade na realização do Processo de Enfermagem, uma vez que este não era explorado previamente. O aluno desenvolvia apenas a assistência de forma mecanizada, não refletindo nem causando impacto sobre a mesma.

A PCA compromete-se com a melhoria do contexto onde se desenvolve: com o desenvolvimento deste trabalho foi identificada a melhora do cuidado praticado pelos discentes no campo de prática, bem como a possibilidade de subsidiar a continuidade da formação do profissional enfermeiro de maneira crítico e reflexiva durante os períodos vindouros do curso de graduação, vislumbrando um maior preparo deste ao término da vida acadêmica.

O pesquisador assume o papel de provedor de cuidados: durante a realização da pesquisa, a pesquisadora-professora atuou junto aos discentes como cuidadora dos clientes hospitalizados, com os quais foi desenvolvida a assistência no campo de prática.

A pesquisa deve ser realizada onde ocorrem as relações sociais propostas pela mesma: a pesquisa aconteceu no espaço físico onde se desenvolveu o processo de ensino-aprendizagem e de assistência durante o Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica.

Operacionalmente, o estudo foi desenvolvido com quinze discentes do quarto período de um curso de graduação em Enfermagem de uma faculdade privada de Curitiba durante o Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica, ocorrido no decorrer dos meses de setembro a novembro de 2008, no setor de Neurologia/Neurocirurgia de uma instituição hospitalar de ensino.

Primeiramente foi realizada uma discussão teórica sobre o Processo de Enfermagem, tendo os conceitos de Horta como eixo norteador. Seqüencialmente, tal referencial foi aplicado cotidianamente no desenvolvimento do ensino clínico e, em seguida, ao término deste, verificou-se a percepção dos discentes no que concerne à trajetória percorrida, com a resposta destes ao seguinte questionamento: relate como foi para você vivenciar o cuidado de enfermagem com a utilização do Processo de Enfermagem sustentado com o referencial de Horta.

Os preceitos éticos da pesquisa alicerçaram-se na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde11, sendo que a coleta das informações deu-se após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Sociedade Evangélica Beneficente sob o protocolo 6356/08 e a assinatura de um termo de consentimento livre e esclarecido pelos participantes.

A técnica utilizada para tratamento dos dados foi a análise temática, que permite classificar o conteúdo de análise em temas a serem interpretados em torno de dimensões teóricas sugeridas pelo material12. Após a pré-análise das respostas foi verificado a que temas remetem e, em seguida, executado seu agrupamento, estabelecendo categorias que contemplem as temáticas identificadas. A partir disso realizaram-se discussões pautadas no referencial teórico para fundamentar as reflexões.

Resultados e discussão

            A partir da leitura das respostas emitidas pelos sujeitos da pesquisa, foi realizada a análise temática, da qual emergiram duas categorias como direcionadoras da análise: visão do paciente na sua totalidade e visibilidade do trabalho do enfermeiro.

VISÃO DO PACIENTE NA SUA TOTALIDADE

            Na presente categoria, os sujeitos enfatizaram por meio das falas duas considerações fundamentais, as quais originaram as seguintes subcategorias de análise: Relação teórico-prática e Humanização da assistência.

Relação teórico-prática

            Nessa subcategoria os discentes participantes da pesquisa salientaram que ao desenvolver o ensino clínico de Semiologia e Semiotécnica sustentado pelo referencial teórico de Horta foi possível a aproximação da teoria por eles vivenciada em sala de aula com a prática realizada cotidianamente junto aos clientes por eles cuidados, conforme ilustram as falas a seguir:

Possibilitou-me ter uma visão ampla do paciente, assim iniciando o meu treinamento para uma visão crítica, possibilitando um entendimento de como devem ser aplicados na prática os conhecimentos que foram construídos na parte teórica da disciplina (A3).

Permitiu que eu não apreendesse o meu foco apenas nos cuidados e nas aplicações das técnicas, podendo assim avaliar muitas outras questões que relacionam a teoria com a prática desenvolvida no estágio (A1)

            Nos mesmos trechos transparece, ainda, a valorização do cuidado como algo que ultrapassa a visão dada à patologia, tão pregada pelo modelo biomédico vigente. Assim, podemos considerar que assistir o cliente de forma sistematizada facilita compreendê-lo na sua totalidade, uma vez que rompe com a visão fragmentada do indivíduo defendida pelo positivismo cartesiano difundido na atenção à saúde desde o século passado.

            O modelo biomédico é responsável pela valorização do tecnicismo em detrimento de outros aspectos envolvidos na assistência6. Na visão dos pesquisados, a vivência da utilização do referencial de Horta possibilitou extrapolar tal paradigma. Nesta perspectiva, os sujeitos enfatizam que tal prática corrobora para a humanização da assistência, discutida na subcategoria a seguir.

Humanização da assistência

            A partir da compreensão dos sujeitos da pesquisa que o cuidado do cliente de forma integral abarca todas as esferas contempladas pelas necessidades humanas básicas, os mesmos salientam em suas respostas que este ato culmina em uma assistência humanizada, como pode ser observado na seguinte fala:

Ao pensar no paciente como algo além de um simples diagnóstico médico, passamos a considerá-lo como um ser humano de verdade, por isso, acho que o processo de enfermagem que fizemos durante o estágio deveria ser adotado como um hábito pelos enfermeiros e profissionais da saúde para a implementação da humanização (A5). 

Tal reflexão converge com achados da literatura, de que a organização do processo de trabalho do enfermeiro de forma sistematizada favorece, entre outras coisas, o desenvolvimento de metodologias humanizadas de cuidado5. Nessa mesma linha de pensamento, emerge a comunicação como facilitador do processo de humanização, a despeito da seguinte colocação: 

Percebi que quando cuidava do paciente realizando o processo da Horta, era mais fácil falar com ele, entende-lo. Acho que essa prática melhora os canais de comunicação entre o enfermeiro e o paciente, auxiliando na humanização da assistência (A4). 

Por comunicação entende-se um meio de obter a ação dos outros, como um processo de transmitir e entender a informação. É um modo de desenvolver entendimento entre as pessoas através de um intercâmbio de fatos, opiniões, idéias, atitudes e emoções13 .

Em síntese, trabalhar de forma sistematizada favorece que as práticas de enfermagem deixem de ser centralizadas apenas na doença e valoriza as necessidades dos indivíduos3, levando à humanização da assistência, conforme colocam os pesquisados. 

VISIBILIDADE DO TRABALHO DO ENFERMEIRO

            No que tange a esta categoria, por meio das respostas obtidas, foi possível detectar duas outras subcategorias: Delimitação de saberes próprios e Melhora na qualidade da assistência prestada.

 

Delimitação de saberes próprios

            Os sujeitos pontuam que ao desenvolver o processo de trabalho ancorado de maneira sistematizada, a visibilidade das atividades do enfermeiro tende a ser descortinada, uma vez que ficam claros quais são os seus conhecimentos específicos que o caracteriza nessa categoria profissional. Seguem exemplos que ilustram tal afirmação:

 

Pude perceber que essa proposta envolve mudanças na forma de agir dos enfermeiros, visto que a sua implantação implica na introdução de uma nova metodologia de trabalho e que para isso, o enfermeiro precisa ter bem claro os seus conhecimentos específicos [...] Auxilia também a ampliar o envolvimento e a participação dos profissionais em programas de educação continuada, a fim de cada vez mais, qualificar a assistência de enfermagem (A10). 

A meu ver, quando a gente cuida utilizando uma determinada metodologia, o nosso trabalho aparece mais, fica mais claro o que o enfermeiro faz de verdade (A12). 

A busca por um corpo de conhecimentos específicos para a profissão com vista a conferir à enfermagem a condição de ciência trilha desde os tempos de Florence Nightingale e até a atualidade continua o movimento pela construção e incorporação de teorias na sua prática profissional14. Assim, é fundamental desenvolver essa atitude desde a trajetória acadêmica para a construção de enfermeiros capazes de trazer à luz a profissão de maneira científica.

Nesse sentido, a visibilidade da enfermagem pode ser alcançada pela incorporação de teorias na prática profissional, uma vez que o enfermeiro concebe e realiza o cuidado de acordo com o referencial teórico adotado, o que reflete em ações específicas da profissão e explicita seu corpo de conhecimento próprio15.  

Melhora na qualidade da assistência prestada

            Os discentes salientam que as percepções dessa vivência discutidas nas subcategorias anteriormente apresentadas convergem para melhorar a qualidade da assistência de enfermagem, o que pode ser identificado nos trechos a seguir: 

[...] com o Processo de Enfermagem foi possível promover cuidado de Enfermagem com melhora da qualidade (A14). 

[...] Direciona-nos também para um cuidado mais humanizado e íntegro, visando a satisfação do paciente e uma assistência de qualidade a este (A15). 

            Diante dessa constatação, ainda que existam descompassos percebidos entre o discurso teórico da adoção de um referencial para a prática de enfermagem e a sua real implementação nas instituições, é indiscutível a recomendação desta para melhoria do cuidado de enfermagem e da assistência em saúde5, uma vez que ao fundamentar sua prática assistencial em teorias, o enfermeiro estará preparado para oferecer cuidados embasados cientificamente e garantir a melhoria na qualidade da assistência16

Considerações finais

O desenvolvimento do presente estudo possibilitou o alcance dos objetivos traçados, uma vez que se utilizou o referencial de Wanda Horta com os discentes de enfermagem durante o Ensino Clínico de Semiologia e Semiotécnica e verificou-se a percepção dos mesmos no concernente a esta trajetória.

Os resultados mostraram que os sujeitos consideram que tal prática proporcionou a visão do paciente em sua totalidade, culminado em uma aproximação teórico-prática na disciplina em questão e facilitando a humanização do cuidado. Além disso, salientam que a sistematização da assistência de enfermagem alicerçada no referencial de Horta desvela a valorização do trabalho do enfermeiro, uma vez que delineia com maior precisão as fronteiras de conhecimento dessa categoria, colaborando para o aumento da visibilidade de atuação deste profissional e para a melhoria da qualidade da assistência de enfermagem.

Nota-se, portanto, que se trata de um tema de vasta abrangência, que permeia todo o processo de trabalho da Enfermagem. Destarte, enfatiza-se a necessidade da persistência do uso desta metodologia como facilitadora do processo ensino-aprendizagem dos futuros enfermeiros, vislumbrando uma prática subsidiada pela cientificidade de forma a transcender os aspectos técnicos e, portanto, rompendo com o paradigma mecanicista de cuidar, atualmente instalado na maioria das instituições de saúde e de educação superior. Desta maneira, faz mister o aprofundamento em pesquisas que abarquem tal temática, para as quais se vislumbra que o presente possa fornecer subsídios.

Por fim, almeja-se que as informações aqui apresentadas possam sensibilizar docentes em prol da construção do conhecimento com o corpo discente de maneira sistematizada, extrapolando a tecnicidade e a fragmentação, com vistas à qualidade do cuidado e ao empoderamento da profissão. 

Referências 

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2 Conselho Federal de Enfermagem (BR). Resolução n° 272/2002. Brasília (DF), 27 ago 2002.

3 Silva TG, Madureira VSF, Trentini M. Processo de ensino-aprendizagem para a implementação do diagnóstico de enfermagem em unidade de terapia intensiva. Cogitare Enferm. 2007 jul-ago; 12(3): 279-86. 

4 Garcia TR, Nóbrega MML, Carvalho EC. Nursing process: application to the professional practice. Online Brazilian Journal of Nursing (OBJN – ISSN 1676-4285) [Online]. 2004 ago; 3(2): [aproximadamente 6 páginas]. Available at: www.uff.br/nepae/siteantigo/objn302garciaetal.htm 

5 Koerich MS; Backes DS, Nascimento KC, Erdmann AL. Sistematização da assistência: aproximando o saber acadêmico, o saber-fazer e o legislar em saúde. Acta Paul Enferm. 2007 oct-dez; 20(4): 446-51. 

6 Andrade JS, Vieira MJ. Prática assistencial de Enfermagem: problemas, perspectivas e necessidades de sistematização. Rev Bras Enferm. 2005 mai-jun; 58 (3): 261-5. 

7 Horta WA. Processo de enfermagem. São Paulo (SP): EPU; 1979. 

8 Dal Bello ITR. A pesquisa convergente assistencial como norte para a prática de um processo de ensino-aprendizagem. In: Trentini M, Pain L. (organizadoras). Pesquisa e assistência: experiências com grupos de estudo na enfermagem. Curitiba (PR): Champagnat; 2003. p.209-25. 

9 Leopardi MT. Teoria e método em assistência de enfermagem. Florianópolis (SC): NFR/UFSC; 1999. 

10 Trentini M, Pain L. Pesquisa em enfermagem: uma modalidade convergente-assistencial. Florianópolis (SC):UFSC; 1999. 

11 Conselho Nacional de Saúde (BR). Resolução 196/1996: Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa em seres humanos. Brasília (DF), 10 out 1996.  

12 Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 8.ed. São Paulo (SP): Hucitec; 2004. 

13 Stefanelli MM. Comunicação com o Paciente: Teoria e Ensino. 2. ed., São Paulo (SP): Robe Editorial; 1993. 

14 Oliveira VL, Backes VMS, Coelho MI, Cezar MR. Evolução do conhecimento científico na enfermagem: do cuidado popular à construção de teorias. Invest Educ Enferm. 2007 jul-dez; 25(2): 108-15.

15 Leopardi MT. Estruturas conceituais para a prática de enfermagem. In: Leopardi MT. Teorias de enfermagem: instrumentos para a prática. Florianópolis (SC): Papa-livros; 1999. p.58-65. 

16 Vall J, Lemos K, Janebro ASI. O processo de reabilitação de pessoas portadoras de lesão medular baseado nas teorias de enfermagem de Wanda Horta, Dorothea Orem e Callista Roy: um estudo teórico. Cogitare Enferm. 2005 set-dez ; 10(3): p.63-70.

 

Contribuição dos autores: Concepção e desenho: Juliana Helena Montezeli; Análise e interpretação: Juliana Helena Montezeli; Escrita do artigo: Juliana Helena Montezeli; Revisão crítica do artigo: Kriscie Kriscianne Venturi, Aida Maris Peres, Liliana Maria Labronici, Mariluci Alves Maftum, Lillian Daisy Gonçalves Wolff; Coleta dos dados: Juliana Helena Montezeli; Aprovação final do artigo: Juliana Helena Montezeli, Kriscie Kriscianne Venturi, Aida Maris Peres, Lillian Daisy Gonçalves Wolff; Provisão de estudantes, materiais ou recursos: Juliana Helena Montezeli; Pesquisa bibliográfica: Juliana Helena Montezeli e Kriscie Kriscianne Venturi; Suporte administrativo, logístico e técnico: Juliana Helena Montezeli e Kriscie Kriscianne Venturi

 

Endereço para correspondência: Juliana Helena Montezeli

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