Life history of diabetics with injuries in feet: qualitative study

História de vida de diabéticos com lesões nos pés: estudo qualitativo 

Maria de Freitas Lourenço Piassa1; Ricardo Castanho Moreira2; Flávia Teixeira Ribeiro Silva3; Maria do Carmo Lourenço Haddad4; Maria de Fátima Mantovani5 

1-3Universidade Estadual do Norte do Paraná, Campus Luiz Meneghel, PR, Brasil; 4Universidade Estadual de Londrina, PR, Brasil; 5Universidade Federal do Paraná, PR, Brasil 

Abstract. The goal was to comprehend the life history of diabetic patients with foot ulcers. A qualitative research called life history was developed. The participants were people with foot ulcers from diabetes, with or without amputation, that were assisted by the Wounds Care Nusing Extension Project at the Northern Parana State University, in the city of Bandeirantes, from August 2009 to March 2010. Interviews were conducted in the participants’ home, after the Ethics on Research Committee. Data were analyzed through content analysis technique. Three men and one woman participated, and their speeches could be represented by two categories: discovery of diabetes and ways of management, and the perception of the diabetic foot and its daily repercussions. The benefits of this research is centered on the opportunity to comprehend this diabetes’ complication from the experience of those who live it. 

Keywords: Chronic disease; Diabetic foot; Life Change Events; Nursing care. 

Resumo. O objetivo foi conhecer a história de vida de diabéticos com lesões nos pés. Realizou-se uma pesquisa qualitativa, na modalidade história de vida. Os participantes foram pessoas com lesões no pé decorrentes do diabetes, com ou sem amputação, atendidas pelo projeto de extensão: Cuidado de enfermagem a pacientes com feridas, do curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Norte do Paraná, na cidade de Bandeirantes, no período de agosto de 2009 a março de 2010. As entrevistas foram realizadas no domicílio de cada participante, após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. Utilizou-se a análise temática dos dados. Participaram três homens e uma mulher, e seus discursos foram representados em duas categorias: a descoberta do diabetes e formas de gerenciamento e a percepção do pé diabético e suas repercussões cotidianas. A contribuição desta pesquisa centra-se na oportunidade de conhecermos esta complicação a partir da experiência de quem a vivencia. 

Palavras-chave: Doença crônica; Pé diabético; Acontecimentos que Mudam a Vida; Cuidados de enfermagem. 

Introdução

De acordo com a 4a Edição do Atlas da Federação Internacional do Diabetes, o diabetes mellitus é responsável por 9% dos óbitos registrados na América Latina(1) e está dentre os principais problemas de saúde apresentados por idosos, com ocorrência diretamente proporcional ao aumento da faixa etária e que se caracteriza por uma elevação na resistência à insulina, levando ao acúmulo de glicose na corrente sanguínea.

Se o indivíduo permanece por um longo tempo com esta condição, ou seja, o descontrole glicêmico, aumenta-se a chance de terem desfechos desfavoráveis a sua saúde, os quais envolvem uma série de complicações que poderão levá-lo à perda da função da visão, à perda da função renal, à problemas cardiovasculares e, principalmente, às lesões nos pés, que poderá privá-los da primordial função do ser humano, a locomoção(2,3).

Contudo, apesar de cada uma destas complicações terem suas peculiaridades, as lesões nos pés, denominadas de “pé diabético”, têm merecido especial atenção no que se refere à prevenção e reabilitação, tendo em vista sua morbidade, que ocorre em 20% de todos os diabéticos, sendo responsável por cerca de 40% a 70% das amputações não-traumáticas dos membros inferiores, e a taxa de internação hospitalar, pois 25% de todas as internações que acometem diabéticos são por problemas nos membros inferiores(2,4-7).

Com relação aos gastos, estudo recente apontou um custo hospitalar médio por paciente que submeteu a amputação de membro inferior de R$ 4.735,99(8).

Não obstante a estes indicadores, pode-se observar que o indivíduo quando acometido por uma complicação em seu pé decorrente do diabetes, necessita de um cuidado de prevenção terciária. Embora, muitas vezes, a reabilitação esteja associada apenas ao fornecimento de órtese ou prótese para reparação da função de um membro, esta prática não deve restringir-se ao reducionismo do indivíduo apenas em seu corpo físico, mas como um ser humano em seu contexto histórico, social e emocional, o qual influencia o significado atribuído por ele a sua doença.

Segundo Turato(9) “o significado tem função estruturante: em torno do que as coisas significam, as pessoas organizarão de certo modo suas vidas, incluindo seus próprios cuidados com a saúde”.

Conhecer a vivência destas pessoas em condições crônicas de saúde, por meio de seus hábitos e crenças, permite descobrir certas recorrências a partir das quais se elabora algumas hipóteses sobre o processo ou os tipos de processos mediante os quais as pessoas chegam a encontrar-se na situação estudada.

Assim, a vivência do diabético com pé diabético configurou-se como objeto de estudo e, a partir deste, tem-se o objetivo conhecer os hábitos e crenças de pessoas diabéticas com lesões nos pés e residentes no município de Bandeirantes (PR). 

Metodologia

            Trata-se de uma pesquisa qualitativa, na modalidade de relato de vida, proposta por Daniel Bertaux. Esta forma de abordagem tem sido valorizada, uma vez que trabalha com o universo de significados, representações, crenças, valores, atitudes, aprofundando um lado não perceptível das relações sociais e permitindo a compreensão da realidade humana vivida socialmente(10:84). Dyniewicz(11) complementa que este conhecimento se dá a partir da descrição da experiência humana e como ela é vivenciada.

            Optou-se por utilizar o referencial de Daniel Bertaux, sociólogo que introduziu na França, nos anos 70, os trabalhos da escola de Chicago e tem uma vasta publicação do método até os dias de hoje(12).

            Nas Ciências Sociais, o relato de vida é o resultado de uma forma peculiar de entrevista, a entrevista narrativa, na qual um pesquisador pede ao sujeito que conte toda ou parte de sua experiência vivida. Diferencia-se da forma oral de uma autobiografia, pois representa um testemunho orientado pela intenção de conhecer do pesquisador que o recorre.

            O relato de vida tem sido, através dos séculos, a maior fonte humana de conversação e difusão do saber, ou seja, maior que a fonte de dados para a ciência em geral; a palavra antecedeu o desenho e a escrita(10).

            Ao inverso do método hipotético-dedutivo, consiste em indagar sobre um fragmento da realidade social-histórica da qual não se sabe muito a priori. Desta forma, suas técnicas de observação não buscam verificar as hipóteses estabelecidas a priori, mas em compreender o funcionamento interno do objeto de estudo e elaborar um modelo desse funcionamento em forma de um corpo de hipóteses plausíveis(13).

            Posto que um relato de vida conta a história de uma vida é normal que se tenha estruturado em torno a uma sucessão temporal de acontecimentos e de situações derivadas deles; esta sucessão constitui de certo modo sua coluna vertebral. Há que entender que acontecimento inclui não o que tem ocorrido ou o que tem sucedido ao sujeito, mas também seus próprios atos.

            O cenário desta pesquisa foi o ambulatório de feridas da Santa Casta de Misericórdia de Bandeirantes, no qual os alunos do curso de enfermagem da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), campus Luiz Meneghel (CLM), atendem semanalmente pessoas com feridas crônicas do município de Bandeirantes e região. Nestes atendimentos, incluíram-se pessoas portadoras de pé diabético, os quais motivaram esta pesquisa.

            Desta forma, a abertura do campo para investigação foi conquistada gradativamente, a cada contato com as pessoas que foram atendidas no ambulatório, até construir-se a identidade de pesquisador perante os atores da pesquisa.

Os sujeitos foram indivíduos com diabetes mellitus, que: tiveram amputação primária (em nível menor ou maior) ou úlcera na extremidade inferior, estavam recebendo atendimento no ambulatório no período de agosto de 2009 a março de 2010 e aceitaram participar voluntariamente da pesquisa, tendo lhes a garantia da isenção de qualquer prejuízo no atendimento caso tivessem decisão contrária.

O ingresso dos participantes no estudo se deu após seu aceite e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme preceito da Resolução no 196/96, que regulamenta as pesquisas envolvendo seres humanos. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética do curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Norte do Paraná, com o parecer de aprovação no 071-2009.

Todos os sujeitos convidados consentiram participar do estudo, e a entrevista foi agendada por conveniência de ambos, no domicílio de cada relator.

Para Bertaux(13), durante a entrevista o pesquisador deve dar impulso a conversação quando necessário, a ouvir e compreender prontamente as palavras do outro, a dominar vossos impulsos e a formular as questões oportunas e no momento oportuno. Assim, foi elaborada as seguintes perguntas norteadoras: Porque você acha que adquiriu diabetes? Como foi para você ter sofrido a amputação (ou a úlcera no pé)?

As entrevistas foram gravadas e logo após sua realização foram transcritas. Em seguida os relatos foram lidos de forma criteriosa sem realizar interpretação, com o sentido de apreender a globalidade desses relatos. Posteriormente, novas leituras foram realizadas buscando evidencias da essencialidade da identidade do entrevistado.

A análise de uma entrevista biográfica tem por objetivo explicitar as informações e significados pertinentes nela contidos. A maioria dessas informações e significados não aparece na primeira leitura; sem dúvida, a experiência demonstra que vão surgindo umas atrás das outras no transcurso das leituras sucessivas(12).

Para análise dos relatos obtidos, foi adotada a análise temática. Este tipo de análise foi o recurso mais utilizado em teses e dissertações que tiveram como referencial o método história de vida, conforme aponta a pesquisa documental de Santos e Santos(12).

A análise temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação e cuja frequência de aparição podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido.

Desta forma, após analisar individualmente os relatos de cada sujeito, e apreender os núcleos de sentidos contidos nas entrevistas, foi estabelecido duas categorias temáticas construídas a partir dos dados coletados.  

Resultados

            Para facilitar a aproximação do leitor de cada um dos atores envolvidos, optou-se por apresentar as características pessoais de cada um.

            Sujeito 1: Masculino, 52 anos, casado, guarda noturno (afastado para tratamento de saúde).

            Sujeito 2: Masculino, 45 anos, solteiro, mestre de obras (afastado para tratamento de saúde).

            Sujeito 3: Feminino, 61 anos, viúva, do lar.

            Sujeito 4: Masculino, 45 anos, casado, comerciante.

A seguir, destacam-se as duas categorias temáticas elaboradas, que são: a descoberta do diabetes e formas de gerenciamento; e a percepção do pé diabético e suas repercussões cotidianas. 

A descoberta do diabetes e formas de gerenciamento

Nesta categoria os sujeitos relatam sobre a maneira como descobriram estar com diabetes.

Descobri que era diabético por acaso, decidi pegar uma ficha e consultar com o médico. Foi quando ele me deu a notícia, que meus exames deram alterados, e que infelizmente um deles apontava o diabetes (Sujeito 1).

Eu sou diabético há vinte anos. Descobri através de um acidente de trabalho [...]. Eu não tinha a mínima noção do que era essa doença, eu desprezei minha enfermidade e não levei o tratamento a sério [...] continuei trabalhando e me alimentando da mesma forma, levando minha vida normal, é por isso que hoje pago esse preço alto (Sujeito 2).

Eu já tenho diabetes há mais de 15 anos, descobri sozinho, eu trabalhava de vigia noturno e estava escutando no radio um programa, havia uma mulher contando a história de seu neto, e como descobrira que a criança era portadora do diabetes. Eu logo me identifiquei com a história, os sintomas eram os menos (poliúria, nicturia) do menino. Apesar do nojo no dia seguinte decido experimentar minha urina, era doce, como eu tinha ouvido à senhora dizer no rádio. Então eu fui ao médico [...] a diabetes na época estava em torno de 350. [...] me alimentava de forma muito errada, então engordei demais ... cheguei a 130 quilos, e foi por isso que eu desenvolvi o diabetes. O grande problema é que o diabetes é uma doença que não dói, ela é silenciosa, então você não se preocupa (Sujeito 3).

O diabetes aconteceu na minha vida porque eu sempre comi muito doce. Eu descobri o diabetes porque eu tinha que fazer uma cirurgia na bexiga e o médico me pediu vários exames e um deles acusou diabetes. Eu tinha por volta de 45 anos e fiquei muito nervosa quando soube da noticia. Eu adoro comer bem, principalmente comer doces (Sujeito 4). 

A percepção do pé diabético e suas repercussões cotidianas

Nota-se que os sujeitos relatam a percepção da lesão no pé como uma complicação repentina, que necessita de amputação.

Só percebi que tinha feridas nos pés quando eu amputei o dedo. Eu nem sabia que meu dedo estava perdido [...] Foi durante minha segunda consulta com o cirurgião vascular que eu o indaguei pela primeira vez, se corria algum risco de perder o dedo. Quando o médico confirmou que seria realizada a amputação, aquilo me trouxe uma paz, enfim eu não iria mais sentir aquela dor terrível [...] (Sujeito 1).

[...] a úlcera se iniciou com uma verruga no quarto dedo, e devido ao longo tempo de trabalho com as botas meus pés não tomavam ar de forma adequada, e assim a verruga se tornou uma ferida. [...] a verruga apareceu no inicio de semana e no fim de semana já estava pronto para cirurgia, foi questão de dias e meu dedo do pé já estava necrosado, então perdi mais da metade do pé por causa de apenas um dedo [...] Para mim foi um processo muito difícil perder o pé. Eu considerava meus pés normais, e sofrer uma amputação por causa do diabetes foi complicado. (Sujeito 2).

Eu fiquei sem a unha, o meu dedo parece que rachou no meio, a ferida começou só aumentar [...] a ferida apareceu de uma hora para outra (Sujeito 4).           

Discussão

Na categoria a descoberta do diabetes e formas de gerenciamento, nota-se que os depoentes não foram abordados através de campanhas de rastreamento do diabetes que são organizadas pelo Ministério da Saúde, mas se depararam com o fato de possuir uma doença crônica, após consulta de rotina, acidente de trabalho ou através de exames pré-operatório, sendo estas motivadas por outros agentes que não os sinais e sintomas do diabetes. Apenas o sujeito 3, relatou descobrir a doença após a compatibilidade que percebera em seu corpo com o que fora relatado pela mãe de uma criança com as características da enfermidade.

Na pesquisa de Pace, Ochoa-vigo, Calin e Fernandes(14), realizada na cidade do interior de São Paulo, os dados são semelhantes, pois 71% dos sujeitos entrevistados foram diagnosticados com diabetes sem apresentarem sintomas clássicos. Nota-se então o caráter mais perigoso da doença, ou seja, seu desenvolvimento de forma silenciosa.

O diabetes acomete a população brasileira entre 30 e 69 anos de idade, preferencialmente, e cerca de 50% dos pacientes desconhecem sua condição patológica(2). As complicações crônicas do diabetes mellitus são as principais responsáveis pela morbidade e mortalidade dos pacientes que desconhecem sua condição ou que não segue da forma correta o tratamento.

Nota-se que descobrir-se com diabetes não era algo imaginado pelos sujeitos e perante o conhecimento súbito da sua atual condição, suas atitudes permeiam sentimentos de negação e culpa.

Na fala dos sujeitos 2, 3 e 4, a negação de sua doença repercutiu na dificuldade de adesão ao tratamento, especialmente no que se refere a mudança no estilo de vida e na alimentação: [...] continuei trabalhando e me alimentando da mesma forma; me alimentava de forma muito errada (Sujeito 4).

 Eles reconhecem que as lesões ou amputações vivenciadas são devido ao descuidado no passado. Isto gera um sentimento de culpabilização de si por estes agravos. Corroborando esta ideia, Santana(15:109) refere que dentre os vários tipos de culpa desenvolvidos pelo diabético, está os que pregam que “as complicações advindas do diabetes que estão presentes em sua vida são consequências do passado”.

Outros estudos também demonstraram a dificuldade de adesão às formas de tratamento pelos diabéticos. Rocha, Zanetti e Santos(16) evidenciaram a divergência entre o conhecimento e o comportamento em relação aos cuidados diários para o controle do diabetes. E Araújo, Gonçalves, Damasceno e Caetano(17) verificaram que pouco mais da metade (54,5%) dos diabéticos residentes em Sobral, Ceará, referiram não ter o cuidado de cumprir o horário de ingestão dos fármacos preestabelecido.

Os relatos seguintes ilustram o comportamento e o significado atribuído pelos sujeitos frente a sua enfermidade, que influenciaram no descuidado diário: “[...] eu desprezei minha enfermidade e não levei o tratamento a sério [...]” (Sujeito 2) e “O grande problema é que o diabetes é uma doença que não dói, ela é silenciosa, então você não se preocupa” (Sujeito 3).

O descuidado leva ao mau controle da glicose sanguínea, condição que favorece o desenvolvimento de complicações, sendo a principal as lesões e ulcerações nos pés, desencadeadas pela neuropatia periférica diabética (NPD). A NPD afeta 50% dos diabéticos, atingindo duas vezes mais a população diabética quando comparado com as pessoas que não tem diabetes.

Por isso se fazem necessárias modificações no estilo de vida que os ajudem a gerenciar o cuidado pessoal(18), incluindo o cuidado diário com os pés, pois a diminuição ou ausência da sensibilidade protetora na região plantar pode postergar a detecção de traumas, fato que pode predispor ulcerações e amputações.

Por sua vez, os relatos contidos na categoria a percepção do pé diabético e suas repercussões cotidianas convergem com a observação de Coelho, Silva e Padilha(19), a qual constatou que a representação social de um grupo de diabéticos sobre o pé diabético permeia percepções desta complicação apenas quando eles sentem limitação na função elementar do pé, ou seja, a sustentação para a locomoção.

Contudo o cuidado primário com os pés inclui a inspeção regular e identificação do pé em risco, porque pé diabético não é caracterizado apenas quando a pessoa tem ferida ou amputação, mas em seu estado inicial caracteriza-se pela alteração de sensibilidade protetora.

            O Grupo de Trabalho Internacional sobre Pé Diabético(20) traça cinco principais metas para reduzir o número de amputações relacionadas ao diabetes, além das duas citadas no parágrafo anterior, inclui orientações aos profissionais, familiares e pacientes, uso de calçado adequado e tratamento da patologia não ulcerativa.

            Além da alteração de sensibilidade, outras características clínicas como fissuras epidérmicas, onicomicose, anidrose, osteoartropatia, dentre outras, são predisponentes às complicações como ulceração e amputação. Neste aspecto, somente o sujeito 4 relatou perceber alterações inicias em seus pés: Eu fiquei sem a unha, o meu dedo parece que rachou no meio, a ferida começou só aumentar. Justamente aquele que não necessitou de amputação.

Outra característica observada foi que a dor motivou a procura dos sujeitos por atendimento no serviço de saúde. O sofrimento crônico modifica o relacionamento familiar e social e favorece a instalação da ansiedade e desespero, agravando o estado geral e a qualidade de vida do indivíduo, como observado no relato do sujeito 3: [...] só fui sentir dor devido a diabetes, quando apareceram às feridas, então era muita dor eu quase ficava louco.

A amputação é uma opção terapêutica para o tratamento do pé diabético, e tem sido apontado como a mais frequente, em decorrência do estágio avançado da doença(8). Apesar de ser um desfecho não almejado pelos pacientes e profissionais, alguns a enfrentam como opção benéfica, considerando o alívio das dores. Quando o médico confirmou que seria realizada a amputação, aquilo me trouxe uma paz, enfim eu não iria mais sentir aquela dor terrível [...] (Sujeito 1).

Por outro lado, a amputação também esteve associada a aspectos negativos.

Foi uma situação terrível quando o médico me disse que teria que amputar meu pé, fiquei fora de mim, eu não acreditava na situação, pois já havia visto isso acontecer com outras pessoas, mas quando aconteceu comigo a situação foi muito complicada. Fiquei muito bravo e com muita raiva, se eu pudesse descrever em somente uma palavra o que o pé diabético significou em minha vida, foi invalidez (Sujeito 2).

            Ao proferir esta mensagem, percebe-se o arrependimento do sujeito por ter negligenciado os cuidados iniciais para o gerenciamento da enfermidade e desalento atual, simbolizado por uma única palavra, “invalidez”.

            Reportando-se novamente a descrição do sujeito, lembra-se que o Sujeito 2, trabalhava como mestre de obras, e conforme relata, estava no auge profissional, contudo, com a amputação afastou-se do trabalho, fato que o fez sentir-se inválido. O trabalho, do ponto de vista filosófico, é essencial e vital na vida dos homens, porque é a forma mais simples, mais objetiva, de se organizarem em sociedade e traz a possibilidade da realização plena do homem enquanto tal(21). Evidencia-se que o sujeito ressalta sua existência enquanto força produtiva.

As evidências da pesquisa de Silva et al.(22), com indivíduos diabéticos que sofreram amputação, coadunam com esta percepção do sujeito, reforçando que “seus corpos não são produtivos como antes, não podendo ser encaixados no universo social imaginado por eles”.

            A inaptidão para o trabalho como consequência do pé diabético, provoca modificações na dinâmica familiar: “o fato de não poder trabalhar por enquanto enfraquece muito meu valor como homem da casa” (Sujeito 2); “Infelizmente ela (a esposa) é a responsável por pela casa agora. Perdi espaço por causa disso (olhar para o pé), antes eu era responsável por tudo [...]” (Sujeito 1).

Historicamente as famílias eram chefiadas pelos homens, pois tinham nele a responsabilidade pelo seu sustento. Desta forma, esta característica foi culturalmente atribuída a ele ao longo do tempo. Contudo este paradigma está mudando, pois segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 30% das famílias brasileiras eram chefiadas por mulheres no ano de 2004(23).

Não obstante a esta repercussão na dimensão social do ser humano, nos relatos depreendemos que ser portador de diabetes e ter uma lesão no pé afeta, ainda, as necessidades biológicas e emocionais.

Simbolicamente, a locomoção esta associada a liberdade, ao direito de ir e vir de todo cidadão brasileiro e a lesão no pé lhe traz o sentimento de restrição: “senti naquele momento que tinha perdido o direito de viver livremente [...]” (Sujeito 2); “é triste ... muito triste, não poder caminhar, sair de casa” (Sujeito 1); “Só uma coisa me incomoda no fato de ter perdido a perna, ter que andar com cadeira de rodas” (Sujeito 3).

A locomoção também é importante por proporcionar ao indivíduo ir ao encontro do outro, seja o amigo, o colega de trabalho ou familiar. O pé diabético, limita esses contatos, repercutindo negativamente na necessidade emocional da pessoa com pé diabético: “A ferida atrapalha muito minha autoestima. Eu era uma pessoa que conviva com muitos amigos, tinha uma vida social ativa, e agora eu fiquei tímido, não procuro os meus amigos, não vou mais às reuniões. O fato de ter que usar muleta, e em algumas ocasiões até mesmo cadeira de rodas, me traz muito desconforto” (Sujeito 2).

Nota-se que ter seus pés lesionados em decorrência do diabetes, o fez afastar-se de seus amigos. O desconforto mencionado foi simbolizado muito além da sua palavra, mas pela sua corporeidade, da qual denota-se a apreensão de como ele irá se apresentar aos outros sem o pé, em uma cadeira de rodas. Assim o desconforto gerado é muito mais pelo o que os outros irão pensar do que suas próprias dificuldades em se locomover com as muletas ou a cadeira.

Isto porque, para Martins(24:45) 

... a expectativa dominante que se tem para o ser humano comum é de que ele seja, tanto quanto possível, semelhante aos outros seres que existam ao redor: realizando, sentindo aquilo que deve ser sentido e dizendo o que deve ser dito. A existência autêntica, entretanto, constitui uma chamada para o ser autêntico e para o sentir autêntico, compreendidos por meio de um ato resoluto. 

Para tanto, os profissionais devem estar preparados para estabelecer um cuidado autêntico, em que cada ser compartilha seu pensamento e sentimentos num processo de reciprocidade, em que o falar e o agir surgem como forma de cuidado, pois as pessoas com lesões nos pés exprimem o desejo de compreender sua situação pelo diálogo e de compartilhar seu pensar com outras pessoas(25). 

Considerações finais

            Dos relatos dos participantes pode-se induzir que existe uma crença de que só há algo de errado com seu corpo quando estes sentem dor, fato que os mobilizam para procurar descobrir o que está acontecendo. Porém quando não percebem a dor, eles não incorporam hábitos recomendáveis para pessoas com diabetes, o que aumentam as chances de complicações.

            A percepção da lesão no pé em um estágio avançado, que teve como opção terapêutica a amputação, traz sentimentos opostos. Para alguns, a amputação trouxe o alívio do sofrimento, para outros é o próprio sofrimento.

            Após vivenciarem a amputação, os participantes expressam o arrependimento por não terem gerenciado bem seus hábitos de cuidados para o controle doença e prevenção de suas complicações, por crerem na impossibilidade de acontecer consigo o que aconteceu com outras pessoas que vivem em seu entorno.

            Esta pesquisa permitiu conhecer histórias de vida de pessoas com diabetes mellitus que tiveram lesões nos pés, que após o sofrimento desta complicação, expressam interesse para melhor gerenciar sua condição crônica de saúde.

            As dores estão ligadas à própria essência da experiência, e também as desilusões. São, justamente, as instâncias negativas da experiência que levam a nova experiência, e, portanto, ao conhecimento.

            A contribuição desta pesquisa para a prática profissional de enfermagem centra-se na oportunidade de conhecermos esta complicação não do ponto de vista biológico, mas a partir da experiência de quem a vivencia. Acredita-se que desta forma, o profissional enfermeiro poderá estabelecer uma relação compreensiva e motivadora para o cuidado da pessoa com diabetes mellitus, almejando proporcionar a eles o conhecimento pelo amor, e não pela dor. 

Referências

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21 Pires MFC. O materialismo histórico-dialético e a educação. Interface – Comunic, Saúde, Educ. 1997 Ago; 1(1): 83-92.  

22 Silva SED, Padilha MI, Rodrigues ILA, Vasconcelos EV, Santos LMS, Souza RF, Conceição VM. Meu corpo dependente: representações sociais de diabéticos. Rev Bras Enferm, Brasília. 2010 Mai-Jun; 63(3): 404-9. 

23 IBGE. Síntese de indicadores sociais. Instituto brasileiro de Geografia e estatística, 2005.

 

24 Martins J. Ontologia de Heidegger. In: Martins J, Bicudo MAV. Estudo sobre existencialismo, fenomenologia e educação. 2. ed. São Paulo: Centauro, 2006.

 

25 Moreira RC, Sales CA. O cuidado autêntico ao ser com pé diabético sob enfoque heideggeriano. Cienc Cuid Saúde. 2009 Out-Dez; 8(4): 515-22.

 

Contribuições dos autores: Concepção e desenho: 1,2; Análise e interpretação: 1-4; Escrita do artigo: 1,2,5; Revisão crítica do artigo: 1-5; Aprovação final do artigo: 1-5.

 

Endereço para correspondência:

Enfermeiro. Doutorando em enfermagem pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professor do curso de enfermagem da UENP, Setor Saúde e Educação. Coordenador do projeto de extensão: Cuidado ao paciente com feridas. Membro do Grupo de Estudos Multidisciplinar em Saúde do Adulto (GEMSA) da UFPR. E-mail: ricardocastanho@uenp.edu.br Telefone (43) 3542-2100. BR 369, Km 54. Bairro Vila Maria. Bandeirantes, PR. CEP 863600-000.