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Everyday behavioral and physical changes in women during the postpartum period – a qualitative approach

Modificações cotidianas, comportamentais e físicas em mulheres no período pós-parto – estudo qualitativo

Cambios de vida, conductuales y físicos en las mujeres en periodo de posparto – investigación cualitativa

Natália Rejane Salim 1, Hudson Pires de Oliveira Santos Junior 1, Dulce Maria Rosa Gualda 1

1 Universidade de São Paulo, SP, Brasil.

Abstract. This article seeks to add to the understanding of changes women in the puerperium experience after giving birth for the first time. This is a qualitative study in which six women whose children were born by natural birth, without untoward events in a maternity hospital accredited to the Brazilian Public Health System (Sistema Único de Saúde – SUS in Portuguese). The results show that the women experienced changes of a bodily and hormonal nature present in the post-partum period both at a physical and a psycho-social level. The women emphasized their discontentment with their self-image and their concern about perineal recovery. Thus, by learning of these women’s experiences it is essential for interventions in the promotion of health to be performed in a coherent way, in view of the demands, not yet fully addressed, that women in the postpartum period make.

Keywords: women's health; postpartum period; life change events; qualitative research.  

Resumo. Este estudo teve como objetivo compreender as transformações no período puerperal em mulheres após o primeiro parto. Trata-se de um trabalho qualitativo, com a participação de seis mulheres, que vivenciaram o nascimento de seus filhos através de parto normal, sem intercorrências em uma maternidade conveniada ao Sistema Único de Saúde. Os resultados apontam que as modificações de ordem corporal e hormonal presentes no período pós-parto são sentidas pelas mulheres no plano físico e também psico-social. As mulheres enfatizaram descontentamento com a auto-imagem e preocupação com a recuperação perineal. Então, conhecer as experiências dessas mulheres torna-se essencial para que intervenções em promoção à saúde sejam realizadas de forma coerente frente às demandas que as puérperas apresentam neste período.

Palavras-chave: saúde da mulher; período pós-parto; acontecimentos que mudam a vida; pesquisa qualitativa.  

Resúmen. Este estudio tuve como objetivo comprender los cambios en el puerperio en mujeres después de lo primero parto. Este es un estudio cualitativo, con la participación de seis mujeres, que experimentaran el nacimiento de sus hijos a través de parto normal sin complicaciones en un hospital de el Sistema Único de Salud (Sistema Único de Saúde-SUS). Los resultados muestran que los cambios hormonales del cuerpo  presentes en el puerperio son experimentados por las mujeres en el âmbito físico y psicosocial. Las mujeres destacaron su descontento con la propia imagen y la preocupación por la recuperación perineal. Conocer que las experiencias de estas mujeres es esencial para que las intervenciones en promoción de la salud se lleven a cabo constantemente satisfacer las demandas de las mujeres en período posparto.

Palabras-clave: salud de la mujer; periodo de posparto; acontecimientos que cambian la vida; investigación cualitativa. 

Introdução 

            O parto é um importante marco no ciclo de vida da mulher, podemos afirmar que é um evento que inaugura uma nova fase, é o momento do encontro entre mãe e bebê. O parto, como um marco na vida das mulheres, repercute no plano físico, social e emocional(1).

            Ser mãe envolve reajustamentos interpessoais, muitas mulheres apresentam sentimentos contraditórios após o evento do nascimento(2), é uma transição que envolve uma construção contínua à medida que a mulher se relaciona com o filho, a família e a rede social. Torna-se necessário pensar a maternidade como um dado sociológico e antropológico e não somente biológico, para que dessa forma os múltiplos aspectos que implicam o “ser mãe” e as variações deste fenômeno na história e nas sociedades possam ser compreendidos(3)

Pois, com a chegada do bebê na família, modifica o cotidiano do casal, ocorre a transição de papéis para a maternidade e para a paternidade, o que exige adaptações exemplificadas como: padrão do sono, medo, desejo sexual, aleitamento materno, cuidado do lar, entre outros. As novas demandas podem suscitar nos pais sentimentos de incapacidade, de forma a desencadear um período de crise(4).

Assim, podemos afirmar que gravidez e o pós-parto são fases da vida das mulheres que exigem um enfrentamento frente a importantes eventos vitais como as mudanças físicas e de papéis(5).

            Um estudo realizado com 128 casais durante o nascimento de seus primeiros filhos identificou que, durante o período puerperal, os pais passaram a estar sobrecarregados e as mães assumiram a maior parte das responsabilidades e trabalho doméstico(6). Sentiram as limitações e as interferências diante do sentimento de dependência em relação à criança, o que se pode traduzir em angustia (7), instaurando-se um sofrimento entre o ideal materno e a vivência do real.

Com base nessas considerações, verificamos que o puerpério é um momento importante na vida das mulheres, porque muitas vezes as atenções se voltam para os bebês e há uma expectativa que a mulher assuma o papel materno idealizado, de imediato e sem dificuldades. Além do mais, as ações para a promoção da saúde neste período estão, em sua grande maioria, centradas nos cuidados ao bebê e no apoio à amamentação mecanicista. Por outro lado, no que se refere à saúde sexual e reprodutiva das mulheres é preciso considerar que cada mulher possui sua própria visão de mundo, o que é reflexo de uma elaboração histórica e cultural que interage com a rede de significados da própria comunidade(8).

            Diante disso, este estudo teve como objetivo compreender as transformações sofridas pelas mulheres no período puerperal após o primeiro parto, sendo este é um período importante, o que o torna essencial para conhecer como as mulheres lidam com as mudanças decorrentes do processo  da maternidade.  

Metodologia 

            Esta pesquisa teve abordagem qualitativa, pois permite captar as singularidades do tema investigado, possibilitando, então, identificar os aspectos culturais e experiências das mulheres sobre as transformações no período puerperal.

            O estudo foi realizado no período de março a setembro do ano de 2008, em Osasco que é o quinto maior município do estado de São Paulo.  Primeiramente o projeto foi apresentado à diretoria do Hospital e Maternidade Amador Aguiar que é conveniado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e fica localizada na Avenida Getúlio Vargas, uma das principais avenidas do município. Mediante autorização e consentimento da diretoria do hospital iniciou-se o contato com as mulheres.

A amostra do estudo foi constituída por seis mulheres que aceitaram participar da pesquisa e que estavam dentro dos critérios de inclusão estabelecidos: mulheres que tiveram uma única gestação, parto normal sem intercorrências e que se encontravam no período puerperal, estando dispostas a compartilharem suas experiências. 

As puérperas foram contatadas durante o puerpério imediato, todas as participantes eram moradoras de Osasco-SP e possuíam faixa etária entre 18 e 23 anos e estavam acompanhadas: quatro com as mães e duas com os companheiros. Os partos ocorreram sem intercorrências, cinco participantes tiveram episiotomia e uma teve laceração espontânea de segundo grau. Desta forma, todas receberam reparo na região perineal. 

Quanto à escolaridade e profissão, cinco participantes possuíam ensino médio e uma tinha ensino superior em pedagogia, e com exceção de duas participantes que estavam desempregadas as demais trabalhavam em: fábrica, comércio de roupas, escola e clínica odontológica.  

A estratégia adotada para a coleta dos dados foi à entrevista semi-aberta, considerada um recurso importante à compreensão da experiência, pois permite que o entrevistado possa discorrer sobre o tema em questão sem se prender à unicamente a indagação formulada(9). 

Tais entrevistas ocorreram quando as participantes encontravam-se no puerpério remoto após o quadragésimo terceiro dia do período pós-parto e foram agendadas conforme o melhor dia, local e horário para as participantes, todas optaram pelo próprio domicílio. Todas as participantes autorizaram o registro dos relatos através de gravador. Foi utilizado um roteiro com as seguintes questões norteadoras: Fale-me sobre a sua vida após o parto; Fale-me sobre o modo como você se vê neste momento; Fale-me sobre as mudanças em sua vida após o parto?

            As informações obtidas nas entrevistas foram tratadas de forma ética, sob absoluto sigilo, com a preservação do anonimato, fielmente transcritas pela pesquisadora e sem interferência de pré-julgamentos. Após ser realizada a transcrição e releituras dos relatos foi dado início a análise dos dados, a qual foi baseada na Análise Temática de Conteúdo(9), através da qual foi possível visualizar as seguintes categorias: Modificações no Cotidiano; Modificações no Comportamento e Modificações Físicas nas mulheres. No processo da categorização os dados foram agrupados mediante os relatos das percepções de cada entrevistada em relação aos assuntos abordados.  

      O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (Processo nº 703/2007/CEP-EEUSP), sendo respeitadas as exigências da Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde e as diretrizes da Declaração de Helsinki(10), com assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.           

 Resultados

        O esquema abaixo demonstra as categorias que emergiram e estão relacionadas com a adaptação das mulheres ao papel materno.

 

 

As mulheres falaram a respeito das mudanças no cotidiano enfatizando as responsabilidades ao tornarem-se mães:   

 Minha vida mudou porque gira agora em torno dele [recém-nascido], se eu quero fazer tal coisa em tal horário eu tenho que esperar ele, no primeiro mês eu não conseguia nem tomar banho direito, comia enquanto ele mamava. (E1)  

Pra mim o dia a dia é complicado, mas eu não gosto de deixar ela [recém-nascida] chorando, às vezes eu espero ela dormir para me dedicar aos afazeres. (E2)  

Nossa mudou várias coisas, agora eu já tenho a experiência de ser mãe, já fico mais ocupadinha com o bebê. (E3)              

As puérperas relataram mudança no comportamento após o nascimento de seus filhos. Pode-se observar que a transformação de papéis que ocorre na vida das mulheres influencia diretamente na forma de agir e pensar:  

 Eu era muito egoísta antigamente, tudo era para mim, eu era muito ciumenta com meu marido. Eu falava assim: “acho que não vou ter filho não, porque vou ter ciúmes do meu marido com o filho”. Que nada, agora eu acho maravilhoso. (E1)  

Então eu sou uma pessoa muito alterada, estressada, nervosa, mas eu fiquei muito mais calma depois que eu ganhei ela, ela me aquieta. Eu fumava, mas depois que eu engravidei parei. (E4)  

No relato a seguir, a mulher declarou que não houve mudança com ela após o nascimento do filho, superando a expectativa do companheiro, porém o mesmo não ocorreu com este. Ela relata que sua paciência continua como antes, mas que para o companheiro mudou, pois ele tem mais responsabilidade e preocupações:  

Acho que não mudou muito não, ficou a mesma coisa, tenho a mesma paciência que eu tinha.  Ele (companheiro) até falou que quando eu tivesse bebê eu não ia ter paciência porque ele me acha estressada, mas eu tenho a mesma paciência, ele está admirado. Pra mim não mudou muito, mas acho que para ele mudou mais porque antes ele não se preocupava com quase nada e agora ele tem uma responsabilidade a mais. (E5)   

Pode-se ver que a maternidade é uma construção diária, um aprendizado que revela transformações e novas adaptações na vida das mulheres durante a trajetória de tornarem-se mães.  

As mulheres perceberam mudanças físicas e referiram sentimentos negativos em relação ao corpo.

As duas falas abaixo pertencem à mesma mulher que demonstra sentimentos de insatisfação com o corpo, vivenciado no período puerperal. Esta insatisfação tem influenciado negativamente em sua sexualidade, fazendo-a sentir ciúme de outras mulheres. O fato do companheiro não se importar ou reclamar não muda o que ela sente. 

 Meu corpo, eu não gosto mais, se eu puder esconder o máximo dele eu escondo antes, eu não tinha vergonha assim, porque eu era mais bonitinha, eu não gosto de sair na rua assim, antes eu gostava de usar roupa curta, hoje você pode ver eu só uso assim toda coberta, me acho gorda, agora para mim eu estou horrível. Eu me incomodo agora porque se agente está assistindo televisão e passa uma mulher de biquíni com o corpo bonito e ele olha e eu fico incomodada, eu me sinto lá no chão porque penso: “ele está olhando para a outra porque ela é bonita”. (E4)

[...] Na vida sexual pra mim faz diferença para ele não. Agora, porque antes assim eu não tinha vergonha de ficar nua na frente dele, agora eu tenho, é um sacrifício, eu saio do banheiro enrolada na toalha, visto a roupa enrolada na toalha para ele não me ver. Quando eu deito é de lado para ele não me ver, ele briga comigo fala que é besteira minha. Eu sei que eu mudei, mas para ele é como se não fizesse diferença. Ele me elogia muito, mas é de mim mesma, o problema é de mim. (E4) 

A puérpera a seguir, também experimentou as mudanças em seu corpo, não se sente atraente, porém tinha consciência que isso poderia acontecer. Pode-se ler em seu relato que a gravidez foi um momento de alegria que sobrepôs às mudanças corporais. Tanto o companheiro desta mulher, quanto o da mulher citada acima não demonstraram preocupação sobre essas mudanças. 

 Está tudo horrível, o quadril não voltou para o lugar ainda, a bunda tá enorme. Eu era muito de fazer academia, parei para engravidar. Ele não falou nada! Eu falo pra ele que estou cheia de estria, ele fala que não tem problema não, mas fica meio abalado o psicológico, não estou mais atraente assim. Eu sabia que ia acontecer isso, sabia das conseqüências da gravidez, tanto é que quando apareceu a primeira estria na minha barriga eu fiquei feito boba: “ai que linda minha primeira estria!” (E1)   

As mulheres também relataram preocupação com a recuperação da região perineal e cuidado com o próprio corpo e sexualidade. Vale ressaltar que cinco das seis participantes tiveram episiotomia e uma teve laceração espontânea de segundo grau. 

Eu levei ponto, já caiu, com quatro dias, por fora está tudo bem, sarou rapidinho por fora, eu vi. Olhei no espelho para ver se estava cicatrizado, para ver se estava tudo bem. (E2)  

No próximo relato, a mulher diz que já tinha uma preocupação anterior ao nascimento do bebê em cuidar do seu corpo e sexualidade, revelou que já tinha o hábito de olhar no espelho a região vaginal:  

Cicatrizou muito rápido eu até fiquei surpresa, caiu o ponto rapidinho, não senti dor porque sempre fiquei cuidando. Eu vi para poder cuidar direito, pra poder limpar, por causa dos pêlos pode inflamar ai eu limpava. Antes eu olhava para saber como é, para saber se estava tudo bem, porque sempre fica passando coisa na televisão então a gente fica preocupada, eu sou muito preocupada com essas coisas. (E5)  

Aqui, o relacionamento com a rede familiar e amigos é importante na forma que as mulheres lidam com suas próprias experiências.  

Como eu estava de resguardo eu não podia sentar de qualquer jeito, mas eu sentava e minha sogra falava que ia inflamar. Minha irmã falava que quando caísse o umbigo iam cair os pontos, mas não caíram, eu resolvi olhar, olhei e ainda não tinha caído, fiquei pensando: “Será que inflamou?”. Eu comecei a tomar mais cuidado, fiquei assim meio cabreira, evitando abaixar para não abrir o corte. Depois de uns dias eu vi e já tinha caído. (E5) 

No relato desta participante, apareceu o medo de olhar a região perineal devido à avó de uma amiga que falava que não podia olhar no espelho. Mesmo achando que isso não era verdade ela ainda ficou na dúvida, porém resolveu olhar:   

Eu estava com medo de olhar os pontos, eu olhei tanto depois... a avó de uma amiga minha falava que não podia olhar no espelho quando tinha levado ponto, eu acho que é besteira. É besteira, não é? Ai eu olhei bastante. (E6)  

Esta outra mulher tinha o hábito de olhar a região vaginal, porém depois do parto não olhou por causa de sua mãe, que disse a ela que os pontos não cicatrizariam se ela olhasse. Mesmo achando que isso não é verdade ela não olhou porque foi sua própria mãe que disse. Ainda assim podemos ver que ela se preocupou com a cicatrização dos pontos porque queria que seu companheiro olhasse para ver se não havia inflamação.  

Eu não vi os pontos nem ele. Eu queria que ele visse para ver se estava cicatrizando se tinha algum inflamado, ele não quis ver e eu também não quis. Olha a gente vai muito pela cabeça dos outros, pelos mais antigos, eu tive curiosidade de ver, ai eu falei para minha mãe vou pegar o espelho e vou ver, mas ela falou que não podia porque ia demorar mais para cicatrizar, eu acabei não vendo porque ela falou, esse negócio é superstição de gente antiga.  Eu sempre vi, agora depois do parto eu não vi mais. (E1)  

Discussão 

            O nascimento de um filho pode ser considerado um evento marcante em diferentes facetas da vida das mulheres. É no puerpério que todo o processo da gravidez e parto é consolidado para o início de uma nova fase no curso da vida.

O desempenho dos novos papéis frente à maternidade e parentalidade exige adaptações em relação ao novo ser que se torna real, diferente do período gestacional, momento em que a criança era sonhada e imaginada(3)

Um estudo realizado com 159 mulheres entre a quarta e a quadragésima quarta semana após o parto indicou que a presença de quadro depressivo mostrou estar associado com a falta de capacidade nas atividades do cotidiano, mostrando correlação entre a incapacidade física e mental com o grau de depressão(5).

A presença do recém-nascido no lar, compondo a organização familiar refletiu no cotidiano. As mulheres evidenciaram que os cuidados com o bebê são prioridades para elas, o que as faz abrir mão de executar outros compromissos como: afazeres domésticos e do próprio conforto e sono para que a atenção seja dada ao bebê.

            Essa renúncia é esperada pela sociedade, decorrente do papel romanceado da maternidade da “mãe perfeita”, dedicada exclusivamente aos filhos, para o qual são preparadas desde a infância, amáveis, compreensivas, tranquilas, ternas, equilibradas e acolhedoras, características que são cobradas em todos os momentos de suas vidas e em tempo integral. Esse entendimento da sustentação ao sistema patriarcal, capitalista e de domínio masculino, representado por uma questão de gênero(11)

            As percepções que as mulheres tiveram sobre seus corpos no pós-parto estão ligadas a ideologia do biológico, pois se sentiram incomodadas em relação à imagem corporal, o que afetou na auto-estima, auto-imagem, sexualidade e relacionamento com o parceiro.

            Na sociedade contemporânea a valorização do corpo tem sido vinculada aos aspectos que valorizam a estética e a sexualidade. O modelo de corpo preconizado e exigido nos dias atuais idealiza a perfeição o que interfere negativamente na vida de muitas mulheres(12)

            Foi possível observar uma grande preocupação das participantes do estudo em relação à auto-imagem; o aumento de peso interferiu na consciência corporal das participantes. Pouca atenção é dada às mulheres na gestação e no pós-parto em relação à orientação nutricional e apoio diante de dificuldades como esta. A literatura aponta que o ganho de peso durante a gestação reflete diretamente na retenção de peso após o parto(13).

            Este fator interfere na auto-estima e na forma de ver a si mesma, o que pode refletir de forma negativa em suas vidas e relacionamentos. Pôde-se observar este fato no relato de uma das participantes que após o parto passou a sentir-se constrangida diante do companheiro, por se achar gorda e não mais atraente o que tem refletido na vida sexual do casal.

            Para algumas mulheres as mudanças físicas sugerem uma preocupação e valorização da auto-estima, enquanto outras encaram o processo como uma evolução esperada. Desta forma a percepção sobre a auto-imagem no puerpério está relacionada com a forma como cada mulher lida com as mudanças que ocorreram em seus corpos, frente à subjetividade, rede social e cultura, pois a imagem corporal é adquirida pelo indivíduo conforme a sua inserção em determinada família, cultura, sociedade juntamente com percepções e variações individuais(14)

            As mulheres deste estudo relataram preocupação com a recuperação da região perineal e cuidado com o próprio corpo e sexualidade. Foi possível observar que as participantes valorizaram a questão da observação vaginal, verificar se a região estava cicatrizada e sem infecção relatada como informação relevante para as participantes. Uma das informantes declarou que teve medo de observar devida afirmação de sua mãe, que a região não cicatrizaria caso ela olhasse, porém demonstrou preocupação, pois desejava que o companheiro observasse a região, verificando se não havia nenhuma anormalidade. Pode-se ver assim que o auto cuidado é importante para as mulheres e desta forma iniciativas que tratem a respeito do cuidado e conhecimento corporal e sexualidade devem ser desenvolvidas no período puerperal. 

A recuperação perineal pós-natal pode ser um problema para muitas mulheres, o que pode afetar negativamente a maternidade e as experiências iniciais, interferindo assim diretamente na sexualidade da mulher neste período. Muitas mulheres no período puerperal não se sentem aptas para a retomada do exercício sexual(15)

            Cinco entre as seis participantes tiveram episiotomia, um dos argumentos mais usados hoje no Brasil a favor desse procedimento é que o parto vaginal compromete os atrativos sexuais das mulheres, porque torna os músculos da vagina flácidos. Porém, conforme as evidências científicas a episiotomia realizada rotineiramente não protege as estruturas vaginais e sim danifica ainda mais(16).

Durante o puerpério a dispareunia pode estar associada à laceração perineal e reparo da mesma, a prática de episiotomia está relacionada à deiscência de pontos e infecção. Estudo realizado em um hospital de Acapulco no México com 368 mulheres que haviam reiniciado a vida sexual após o parto, encontrou que o fator mais importante ligado a dispareunia foram as complicações da episiotomia(17).   

            Pode-se observar, dessa forma, que falta por parte dos profissionais da assistência obstétrica capacitação, preparo e respaldo diante das evidências científicas. Torna-se essencial à prática de proteção do períneo, sendo de fundamental importância que as mulheres saibam o que é a episiotomia, sua indicação e conseqüência(18).  

            O processo que envolve o puerpério e a maternidade se dá como uma construção diária na vida das mulheres, tornando-se importante conhecer a realidade das puérperas, as dificuldades enfrentadas neste período para que soluções sejam encontradas juntamente com elas. 

            As categorias encontradas possibilitaram a compreensão das vivências das mulheres no período pós-parto bem como as particularidades e significados das experiências para cada participante.   

Considerações finais   

Este estudo possibilitou conhecer vivências durante o período puerperal e desta forma entender que este é um período importante para as mulheres, pois elas passam por diferentes tipos de modificações que interferem em todas as esferas de suas vidas. Pode-se ver que o período pós-parto exige novos ajustes na vida das mulheres, não só no âmbito físico como no âmbito psicossocial, o que reflete no plano das relações e na forma que cada uma se constituí integralmente, como mulher e mãe.            

            As atividades educativas relacionadas ao corpo, ao  autocuidado  e sobre os aspectos em saúde sexual devem ser incluídas nas orientações do pós-parto. Deve-se, também, destacar a importância de abordar questões relativas as cicatrizes cirúrgicas genitais, e o tempo de  retomada da vida sexual, bem como questões referentes aos aspectos nutricionais no período de amamentação e voltados à reeducação alimentar de forma a valorizar a promoção da saúde no puerpério e durante outros períodos de suas vidas. 

Referências 

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