Atitudes dos profissionais no cuidado em situação de suicídio: estudo transversal

 

Fernanda Pinto da Silva1, Ândrea Cardoso de Souza1

 

1 Universidade Federal Fluminense, RJ, Brasil

 

RESUMO

Objetivo: Conhecer as crenças e atitudes dos profissionais da Estratégia Saúde da Família de Santa Cruz Cabrália/Bahia. sobre a problemática do suicídio. Método: Estudo transversal, quantitativo, realizado com 37 profissionais. Foi aplicado aos profissionais um questionário de atitudes em relação ao comportamento suicida (QUACS) dos usuários atendidos pela Estratégia Saúde da Família no município e um formulário de formação profissional. Os dados foram analisados pelo Statistical Package for the Social Science – SPSS, verificando-se a média e desvio padrão dos fatores. Resultados: Evidencia-se um despreparo dos profissionais no atendimento a usuários em risco de suicídio, com sentimentos de incapacidade e atitudes moralistas. Discussão: Os profissionais da Atenção Primária à Saúde são fundamentais na detecção e intervenção precoce do suicídio. Conclusão: É necessário melhor preparo dos profissionais para o acompanhamento desses usuários na Estratégia Saúde da Família. Compete aos gestores, assegurar que esses usuários sejam acompanhados de maneira integral nos serviços de saúde.

 

 

Descritores: Suicídio; Estresse Psicológico; Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde; Profissionais de Saúde; Atenção Primária à Saúde.

 

INTRODUÇÃO

O suicídio constitui um grande problema de saúde pública, que envolve aspectos sociais, emocionais e econômicos. Para seu enfrentamento, é preciso a adoção de medidas efetivas; como, por exemplo, os investimentos nas áreas econômica e/ou social e a implantação de tecnologias de cuidado robustas(1)

Há pesquisas que apontam que, a cada 45 segundos, ocorre um suicídio no planeta; calcula-se que a cada ano suicidam-se mais de 800 mil pessoas(2). Dados do Brasil indicam que ocorrem cerca de 10 mil mortes por suicídio ao ano, registrando um aumento da taxa de mortalidade por suicídio por 100 mil habitantes, ocorrendo 5,3% em 2011; chegando a 5,7% de óbitos em 2017(3).

Sendo a Atenção Primária à Saúde (APS) a porta de entrada e o contato preferencial do sujeito com o sistema de saúde e com ações de promoção e prevenção, garantindo acessibilidade, longitudinalidade, integralidade e coordenação da atenção(4), ela possui papel fundamental na prevenção, avaliação e abordagem de pacientes com risco de suicídio, para a redução dos índices de tentativas e de suicídios consumados. Para tanto, é preciso um esforço coletivo de gestores e Instituições de Ensino para a qualificação dos profissionais que atuam nesse nível de atenção, visando à intervenção precoce nos casos de tentativa de suicídio(5)

Os profissionais que atuam na Estratégia Saúde da Família (ESF), por estarem em contato próximo e prolongado com usuários, familiares e comunidade, estão em posição privilegiada para avaliação dos pacientes em risco de suicídio, devendo estar atentos para os sinais de riscos e vulnerabilidades(6)

A ESF tem, portanto, por meio de sua equipe, papel primordial na construção e condução do cuidado aos usuários em risco de suicídio. No entanto, é necessário que as equipes estejam preparadas e qualificadas para a atenção a esses usuários a fim de poder ofertar uma assistência eficaz e um apoio adequado, pois não é simples realizar essa atenção de forma integral, resolutiva e humanizada(6).

Alguns fatores podem interferir no cuidado oferecido, comprometendo a qualidade da assistência aos usuários. Eles estão relacionados principalmente com crenças, atitudes, valores, falta de conhecimento, estigma, os quais dificultam a escuta, o acolhimento e a vinculação a essas pessoas(7), atributos essenciais ao exercício da clínica ampliada.

Destarte, o objetivo desta pesquisa consiste em conhecer as crenças e atitudes dos profissionais da ESF ante a problemática do suicídio.

 

MÉTODO

Estudo de campo exploratório com delineamento transversal e de abordagem quantitativa, realizado no município de Santa Cruz Cabrália, Bahia. A pesquisa foi realizada com 11 equipes da ESF do tipo II e 6 equipes de saúde bucal modalidade 1 das unidades da ESF, o que constituiu a totalidade dos serviços da ESF do município.

Participariam do estudo: todos os profissionais médicos (11), enfermeiros (11) e técnicos de enfermagem (21) das ESF, totalizando 43 profissionais. No entanto, o estudo foi realizado apenas com 37 profissionais, visto que 3 estavam de férias, 1 estava de licença médica; e 2 não estavam presentes no dia das visitas às unidades.

Os critérios de inclusão adotados foram: profissionais que possuíssem atuação mínima de seis meses na equipe da ESF e que estivessem presentes no dia da visita às unidades. Os de exclusão: profissionais que estivessem afastados por licença médica, férias e atestado médico.

O processo de coleta de dados se deu via formulário de qualificação profissional e incentivo municipal e por meio de um questionário autoaplicável sobre a Atitude em Relação ao Comportamento Suicida (QUACS), com profissionais de enfermagem(8) .

O QUACS corresponde a uma escala contendo 21 itens visuais análogos que reúnem as crenças, os sentimentos e as reações em relação a pacientes suicidas, correspondendo cada item a uma escala visual de 10 cm entre concordância e discordância total(8,9).

As perguntas contidas no QUACS foram agrupadas em três razões: “sentimentos negativos diante do paciente suicida”, “percepção de capacidade profissional” e “direito ao suicídio”. Em “sentimentos negativos diante do paciente suicida”, quanto mais elevada a pontuação, maior a presença de sentimentos negativos, os quais podem dificultar a assistência ao indivíduo que apresenta o comportamento suicida: Q2- Quem fica ameaçando, geralmente não se mata; Q5- No fundo, prefiro não me envolver muito com pacientes que tentaram o suicídio; Q9- Tenho receio de perguntar sobre ideias de suicídio e acabar induzindo o paciente a isso; Q13- Às vezes, dá raiva porque tem tanta gente querendo viver e aquele paciente querendo morrer; Q15- A gente se sente impotente diante de uma pessoa que quer se matar; Q19- Quem quer se matar mesmo não fica "tentando"; com exceção da questão Q17- No caso de pacientes que estejam sofrendo muito devido a uma doença física, acho mais aceitável a ideia de suicídio, que teve seu valor invertido durante a somatória de pontos.

Em relação ao elemento “percepção de capacidade profissional”, quanto maior a pontuação, mais confiante o profissional se sente para lidar com indivíduos com comportamento suicida: Q1- Sinto-me capaz de ajudar; Q7- Sinto-me capaz de perceber quando um paciente tem risco de se matar; Q10- Acho que tenho preparo profissional para lidar com pacientes com risco de suicídio; no entanto, quanto à questão Q12- Sinto-me inseguro(a) para cuidar de pacientes com risco de suicídio, é necessário que tenha seu valor invertido.

No elemento “direito ao suicídio”, uma maior pontuação pode significar uma atitude mais “moralista”, com exceção questão Q3- Apesar de tudo, penso que uma pessoa tem o direito de se matar, que, durante a verificação da soma dos escores, teve seu valor inverso. Valem as regras para as questões Q4- Diante de um suicídio penso: se alguém tivesse conversado, a pessoa teria encontrado outro caminho; Q6- A vida é um dom de Deus e só Ele pode tirar; Q16- Quem tem Deus no coração não vai se matar; Q18- Quando uma pessoa fala em pôr fim à vida, tento tirar aquilo da cabeça dela.

Para análise dos dados quantitativos, inicialmente, foram calculados os escores dos três fatores do QUACS. Esses escores são produtos da soma de questões características do questionário, conforme retratado em seguida:

As questões Q8, Q11, Q14, Q20 e Q21 não serão somadas aos elementos da escala, pois não apresentam afinidade com os fatores construídos. Desse modo, podem ser analisadas separadamente ou excluídas da análise da escala(9).

Os dados foram tabulados em planilha Excel®, sendo posteriormente exportados para o Statistical Package for the Social Science - SPSS versão 23. Foi realizada a verificação da média e desvio padrão dos fatores do questionário de atitudes em relação ao comportamento suicida de todos os grupos profissionais (médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem), apresentando-os em tabelas.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Santa Cruz sob nº 2776444.

 

RESULTADOS

 

A proposta inicial do estudo previa a participação da totalidade dos profissionais que atuavam na Estratégia Saúde da Família de Santa Cruz Cabrália/Bahia, porém, após a aplicação dos critérios de exclusão a amostra do estudo foi composta por 10 médicos, 9 enfermeiros e 18 técnicos de enfermagem. Destes, respectivamente, 70%, 89% e 94,5% se consideravam uma pessoa religiosa. Assim como que, em média, nesta ordem, 69%, 79% e 52% acreditam que as pessoas que tentam suicídio possuem algum tipo de transtorno mental. 

O perfil de formação desses profissionais participantes está expresso na tabela 1.

 

Tabela 1. Perfil profissional dos médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem das ESF, quanto à formação, no município de Santa Cruz Cabrália, Bahia, 2018 (n=37)

Variáveis

(n)

(%)

Tempo de formação profissional

1 a 3 anos

6

16,2

11 a 15 anos

2

5,4

4 a 6 anos

4

10,8

7 a 10 anos

9

24,3

Maior que 15 anos

16

43,2

Experiência no campo de saúde mental

Não teve experiência anterior

23

62,2

Sim, tive experiência anterior

14

37,8

Realizou disciplinas na graduação que abordasse o tema suicídio

Não

16

43,2

Não lembro

2

5,4

Sim

19

51,4

Realizou cursos de pós-graduação lato sensu, que abordasse o tema suicídio

Não lembro

1

2,7

Não

34

91,9

Sim

2

5,4

Fonte: Dados oriundos da pesquisa.

 

Foi evidenciado, em relação ao tempo de formação profissional, que 43,2% dos profissionais possuem mais que 15 anos de formados. Ademais, 62,2% deles tiveram alguma experiência com o campo da saúde mental; e 51,4% desses profissionais relataram ter cursado disciplinas na graduação que abordavam a temática do suicídio. Conforme dados da tabela 2, a participação em cursos de pós-graduação que abordassem o tema suicídio, foi mencionada por apenas 5,4% dos entrevistados.

 

Tabela 2. Incentivo municipal à qualificação dos médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem das ESF, capacitação e apoio no município de Santa Cruz Cabrália, Bahia, 2018 (n=37)

Incentivo municipal

Variáveis

(n)

 (%)

O município oferta algum incentivo à formação e à atualização dos profissionais da ESF no campo de saúde mental

Não

31

83,8

Sim

6

16,2

Incentivo ofertado

Nenhum

30

81,1

Discussões em rede

4

10,8

Educação continuada / Discussões em rede / Seminários

3

8,1

Frequência que são ministrados os incentivos à capacitação e à formação

Nunca

29

78,4

Com frequência razoável

2

5,4

Raramente

6

16,2

Considera-se apto para assistir um paciente com tentativas de suicídio na ESF

Com certeza, sim

6

16,2

Em geral, sim

11

29,7

Mais ou menos

16

43,2

Não, de forma alguma

4

10,8

Recebe apoio para atenção ao usuário com transtornos mentais

Não

11

29,7

Sim

26

70,3

Qual tem sido este apoio

Apoio institucional

2

 5,4

CAPS

4

10,8

NASF

7

18,9

NASF / Matriciamento

5

13,5

NASF / Apoio institucional

3

 8,10

Matriciamento

4

10,8

Fonte: Dados oriundos da pesquisa.

De acordo com os achados da pesquisa, foi possível inferir que existia pouquíssimo incentivo para a formação e a atualização dos profissionais das ESF no campo de saúde mental, fato apontado por 83,8% dos profissionais, sendo que 10,8% enunciaram discussões em rede como a principal estratégia adotada. Dos profissionais, 78,4% relataram que a frequência de incentivos à capacitação e à formação era inexistente.

Além disso, 29,7% deles consideraram estar aptos para assistirem usuários com tentativas de suicídio, enquanto 24,3% se consideravam parcialmente aptos; e 10,8% não se sentiam preparados.

Os participantes (70,3%) mencionaram contar com apoio para desenvolverem um melhor cuidado aos usuários com história de tentativa de suicídio; desses, 18,9% contam com os Núcleos Ampliados de Saúde da Família (NASF), 13,5% referiram NASF e matriciamento e 5,4% referiram contar somente com o apoio institucional.

A tabela 3 a seguir apresenta informações sobre a média e o desvio padrão, apresentando também os desvios mínimos e máximos observados sobre os fatores do questionário de atitudes em relação ao comportamento suicida por profissão, facilitando a observação das diferenças das respostas entre os profissionais.

 

Tabela 3. Análise descritiva dos três fatores de avaliação do “questionário de atitudes em relação ao comportamento suicida” entre os profissionais, médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, no município de Santa Cruz Cabrália, Bahia, 2018 (n=37)

 

QUACS - Categorias

Médico

Enfermeiro

Técnico enfermagem

Média

(DP)

Min

Média

(DP)

Min

Máx

Média

(DP)

Min

Máx

Sentimentos Negativos 

Q2

3,7

3,8

0

1,7

2,1

0

5

3,7

4,1

0

10

Q5

3,1

4,2

0

1,7

3,3

0

8

2,3

2,6

0

8

Q9

1,1

2,8

0

2

3,1

0

8

2,3

3,1

0

8

Q13

2

3,1

0

0,8

2

0

6

3,4

4,1

0

10

Q15

2,9

3,5

0

5

3,3

0

10

3,8

3,6

0

10

Q17

0,9

1,5

0

0

0

0

0

0,3

0,5

0

1

Q19

4,2

3,9

0

1,2

2

0

5

4,4

4,2

0

10

Capacidade Profissional

Q1

7,7

2,1

5

5,4

0,9

4

7

6,4

2,7

0

10

Q7

8,1

2,2

3

5,1

2,8

0

9

4,4

3,7

0

10

Q10

7,6

2,3

5

4,6

1,6

2

6

5,7

3,2

0

10

Q12

3,3

3,3

0

4,2

2,6

0

8

4,2

3,5

0

10

Direito ao Suicídio

Q3

1,4

2

0

0

0

0

0

0,7

1,5

0

6

Q4

8,9

2,2

3

8,2

2,5

4

10

8,3

2,8

0

10

Q6

7,2

4,2

0

7,4

4,3

0

10

9,4

2,4

0

10

Q16

4,5

5

0

1,1

3,3

0

10

4,3

4,7

0

10

Q18

9,5

1,1

7

8,9

1,5

6

10

9,4

2,4

0

10

Fonte: Dados oriundos da pesquisa.

A tabela 4 abaixo apresenta informações das três profissões relacionadas com fatores do questionário de atitudes em relação ao comportamento suicida, apresentando as diferenças de percepções dos profissionais de nível superior e médio que operacionalizam o cuidado desses usuários em seus territórios de saúde. Consegue-se perceber claramente o que as médias por categoria já evidenciavam.

 

Tabela 4. Análise descritiva dos três fatores de avaliação do “questionário de atitudes em relação comportamento suicida” entre os profissionais médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, no município de Santa Cruz Cabrália, Bahia, 2018 (n=37)

Fator

Fator 1

Fator 2

Fator 3

Fator 1

Fator 2

Fator 3

Fator 1

Fator 2

Fator 3

Profissionais

Médicos

Enfermeiros

Téc. Enfermagem

Pontuação

Pontuação máxima

Pontuação máxima

Pontuação máxima

70

40

50

70

40

50

70

40

50

1

31

29

23

14

11

23

37

26

40

2

17

23

20

14

17

29

23

17

31

3

15

40

30

8

21

30

20

16

34

4

39

40

31

13

27

17

46

21

38

5

19

35

30

10

08

14

29

26

30

6

1

23

26

9

22

19

32

17

41

7

5

40

15

31

21

39

0

27

29

8

5

25

33

5

27

30

1

26

30

9

16

20

19

7

20

28

16

27

30

10

31

40

33

-

-

-

22

30

35

11

-

-

-

-

-

-

32

25

40

12

-

-

-

-

-

-

36

10

25

13

-

-

-

-

-

-

10

12

0

14

-

-

-

-

-

-

4

18

30

15

-

-

-

-

-

-

10

30

40

16

-

-

-

-

-

-

5

14

30

17

-

-

-

-

-

-

16

20

40

18

-

-

-

-

-

-

18

17

29

Fonte: Dados oriundos da pesquisa.

Ao comparar os três fatores da escala entre médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, observou-se que, em relação ao fator 1 “sentimentos negativos em relação ao paciente”, técnicos de enfermagem seguidos dos médicos possuem maiores escores, apresentando mais sentimentos negativos comparados aos enfermeiros. Sobre o fator 2 “capacidade profissional”, os médicos possuem um maior escore de capacidade profissional, seguidos dos técnicos de enfermagem. Os enfermeiros obtiveram um menor escore em relação à capacidade profissional. Abordando o fator 3 “direito ao suicídio”, os técnicos de enfermagem tiveram um maior escore, seguidos dos médicos, evidenciando atitudes mais moralistas ante o problema.

 

DISCUSSÃO

O tempo de experiência do profissional no mercado de trabalho constitui-se um indicativo de qualidade, assim como contribui para a maturidade nos processos de trabalho. Neste estudo, 43,2% (n=16) possuíam um tempo de formação maior que 15 anos, enquanto 54,1% possuíam um curto período entre 1 ano e 4 anos de atuação na ESF do município(10).

A maior parte não possuía experiência no campo de saúde mental (62,2% – n=23), contudo, 51,4% (n=19) relataram ter realizado disciplinas na graduação que abordassem o tema suicídio. Ficou evidente que 91,1% dos profissionais não cursaram nenhuma disciplina que versavam ou contemplassem a temática do suicídio em seus respectivos cursos de pós-graduação. No entanto, a temática do suicídio necessita ser inserida na formação dos profissionais, visto que se trata de um fenômeno de saúde pública, além dos atravessamentos sociais e econômicos, necessitando que os profissionais estejam qualificados para o enfrentamento e a prevenção do suicídio(11).

Sobre o incentivo municipal dado aos profissionais das ESF do município, 83,8% (n=31) disseram não haver; dos que relataram existir, 10,8% (n=4) informaram que acontece via discussões em rede, entretanto, relataram acontecer com rara frequência. É mediante investimentos na formação dos profissionais que, aos poucos, conseguiremos vencer os obstáculos, por meio de um processo permanente, pela melhoria da assistência à saúde(12); podendo os incentivos ser um conjunto de estímulos, financeiros ou não, que visam ajustar e otimizar os componentes do processo produtivo nos serviços de saúde, possibilitando um melhor acesso aos serviços de saúde essenciais à população e garantindo maior qualidade no atendimento em saúde. 

Quanto a se considerar apto para assistir um paciente com tentativas de suicídio, 16,2% (n=6) informaram que com certeza, sim; 29,7% (n=11) disseram que em geral se consideram aptos; 43,2% (n=16) se consideram mais ou menos; 10,8% (n=4) não se consideram aptos de forma alguma. A maior parte dos profissionais da assistência à saúde não está preparada para atender pacientes suicidas, necessitando de qualificação, para mudanças de percepção e atitudes negativas que podem vir a interferir em um cuidado resolutivo(13,14).

Em relação ao apoio recebido do município para qualificação dos profissionais para atenção aos usuários com transtornos mentais, 70,3% (n=26) disseram ter recebido, sendo em maior parte do NASF (18,9%), matriciamento (10,8%) e NASF/matriciamento (13,5%). O suporte matricial em saúde mental consiste em uma prática fundamental, pois contribui para ao apoio de casos e situações complexas, como também para a organização de ações e educação permanente de toda a equipe de saúde(15).

A articulação dos serviços da rede no território possui um papel essencial, principalmente abordando a questão psicossocial, estimulando uma troca de saberes, com ações de forma integrada e complementar, produzindo um cuidado integral por meio de um diálogo permanente entre as redes, potencializando ações desenvolvidas(16).

Analisando o resultado dos fatores do questionário de atitudes em relação ao comportamento suicida, os enfermeiros foram os que menos se sentiam suficientemente seguros e capazes em cuidar de paciente com risco de suicídio. Além disso, foi observada uma pontuação muito elevada em relação a atitudes moralistas entre médicos e técnicos de enfermagem, retratando, com esses achados, a deficiência dos profissionais da atenção básica, porta de entrada preferencial à assistência à saúde, em lidar com esse grave e importante problema de saúde pública, acarretando uma assistência inadequada aos usuários em sofrimento mental.

Uma equipe despreparada pode fazer com que a condição do usuário se agrave, pois ele pode se sentir desconfortável, estigmatizado e se afastar do serviço e dos profissionais que ali estão, evitando procurar ajuda novamente(7).

Em relação aos “sentimentos negativos”, foi evidenciado um baixo escore em todas as categorias profissionais, resultando em sentimentos mais positivos. Entretanto, ao fazer uma comparação entre as três categorias, os técnicos de enfermagem apresentaram maiores pontuações, seguidos dos médicos, demonstrando que estes possuíam mais sentimentos negativos em relação às pessoas que tentam suicídio. Em contrapartida, os técnicos, foram os que referiram se sentir mais preparados, com altos escores, para o cuidado do paciente suicida. Destaca-se o baixo escore dos enfermeiros em relação à “capacidade profissional”, evidenciado pela pouca segurança ao lidar com pacientes com risco e tentativas de suicídio.

Sendo o enfermeiro um profissional que está em permanente contato com o paciente, é bastante preocupante saber que estes não se sentem preparados para o cuidado às pessoas em sofrimento mental que buscam atendimento na ESF. Constatou-se que esses profissionais são habilitados para intervir no cuidado ao paciente, tendo como objetivo o cuidado e a valorização da vida, não estando, porém, preparados para lidar com a morte, tampouco com o desejo de morrer, sentindo-se até mesmo fracassados no processo assistencial(17). Dessa forma, é necessário que a equipe de enfermagem esteja qualificada para conhecer os fatores que podem levar as pessoas a tentarem o suicídio, com utilização de estratégias preventivas, modificando atitudes negativas e deixando de lado possíveis julgamentos, possibilitando um cuidado mais acolhedor(6). Em contrapartida, os médicos, segundo o questionário, possuíram uma maior capacidade profissional, seguidos dos técnicos de enfermagem.

Já em relação ao “direito ao suicídio”, os médicos e técnicos de enfermagem demonstraram mais atitudes moralistas quanto ao suicídio, entretanto, os enfermeiros também obtiveram pontuações significativas. Apesar de os técnicos se sentirem mais confiantes e preparados para lidar com a situação de pacientes com risco de suicídio, eles foram os que obtiveram maiores pontuações sobre atitudes moralistas.

As atitudes dos profissionais são cercadas de crenças e valores. Atitudes estigmatizantes e crenças equivocadas podem gerar uma assistência inadequada, tornando-se um obstáculo de acesso ao tratamento, precisando com que haja, por parte desses profissionais, maior reflexão e compreensão dos processos emocionais que as pessoas com risco de suicídio estão vivenciando(18).

É sabido que 3 a cada 4 indivíduos que cometeram suicídio tiveram contato com serviços de atenção primária no ano de sua morte, tendo 1 em cada 3 pessoas contato com serviços de saúde mental. Sendo no mês anterior ao suicídio, 1 em cada 5 pessoas tiveram contato com saúde mental; e cerca de 45%, com serviços de atenção primária, mostrando, com isso, o papel fundamental dos profissionais da APS na detecção precoce dos fatores de risco e prevenção do suicídio(13). Por conseguinte, é necessária a atenção dos profissionais no sentido de identificar e, possivelmente, cuidar dessas pessoas com o intuito de evitar o suicídio(19).

 

CONCLUSÃO

Percebe-se um despreparo dos profissionais da ESF na atenção aos usuários com risco de suicídio, apresentando sentimentos de insegurança, incapacidades e atitudes moralistas em relação a esses pacientes. 

Podemos concluir que a ESF é um ponto de atenção fundamental para esse cuidado, pois, nele, os profissionais têm maior chance de realizar detecção precoce desses usuários em sofrimento, rastreio, acompanhamento e adoção de ações de prevenção.

É imprescindível que os profissionais estejam preparados para atender os usuários com comportamentos suicida. Para isso, torna-se necessária a adoção de ações de educação permanente, incluindo matriciamento e rodas de conversas para desmistificação do suicídio, desenvolvimento de comportamentos menos preconceituosos, estigmatizantes e moralistas diante ao problema e do próprio usuário. 

Acredita-se que a presente pesquisa pode contribuir para construção de novos encontros e saberes com a temática ao trazer a percepção e os sentimentos dos profissionais da saúde família ante o suicídio; convocando, assim, profissionais e gestores para a implantação de estratégias de cuidados para o cuidado diferenciado e qualificado às pessoas com trajetória de suicídio. Entretanto, este estudo alerta para a necessidade de pensar em como inserir, na formação em saúde, temas pouco explorados nas instituições formadoras e que integram o cotidiano dos serviços de saúde, como suicídio, drogas e outros, de forma transversal, integrada e interprofissional.

 

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Recebido: 15/09/2020

Revisado: 03/03/2021

Aprovado: 29/03/2021