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Promoting health in the hospital from the viewpoint of the nurse: descriptive-exploratory study
Promoção da saúde no hospital sob a ótica do enfermeiro: estudo descritivo-exploratório

Promoción de la salud en el hospitalario bajo la perspectiva del enfermero:
estudio exploratorio     descriptivo
 

Joyce Mazza Nunes1; Álissan Karine Lima Martins1; Maria de Fátima Bastos Nóbrega1; Ângela Maria Alves e Souza1; Ana Fátima Carvalho Fernandes1; Neiva Francenely Cunha Vieira1. 

1 Universidade Federal do Ceará, CE, Brasil.

Abstract: The present study aims to identify the vision of nurses about health promotion in the hospital context contributing for the reflection about these actions and the growth of approaches about nursing care in a critical and transforming perspective. It is a qualitative research, from the descriptive-exploratory type conducted with nurses from a public hospital in Fortaleza (CE). After the interviews, the information were organized and interpreted according to the analysis of the themes. The speeches showed an evidence of a broad conception in health. However, the strategies used by nurses on their hospital practice still are focused on prevention, treatment and cure of diseases instead of integral care focused on health promotion. Then, it is necessary advances to develop actions according to health promotion in the hospital context, contributing to strengthen the bonds among the subjects creating experiences that confirm the viability of those presuppositions in all nursing realities as a way to improve the life of patients in the places where health is the question.

Keywords: Health Promotion; Nursing; Hospitals

Resumo: O estudo pretende identificar a visão do enfermeiro sobre promoção da saúde no contexto hospitalar contribuindo para a reflexão sobre as práticas existentes e a ampliação dos olhares sobre o cuidado de enfermagem numa perspectiva crítica e transformadora. Trata-se de pesquisa qualitativa, do tipo descritivo-exploratória realizada com enfermeiros de um hospital público do município de Fortaleza (CE). Após as entrevistas, as informações foram organizadas e interpretadas segundo análise temática. Os relatos evidenciam o predomínio de uma concepção ampliada em saúde. Entretanto, as estratégias utilizadas por enfermeiros na sua prática hospitalar ainda estão centralizadas na prevenção, tratamento e cura de doenças em detrimento a cuidados integrais voltados a promoção da saúde. Portanto, se fazem necessários avanços para o alcance do desenvolvimento de ações segundo a promoção da saúde no contexto hospitalar, contribuindo para o fortalecimento dos vínculos com os sujeitos gerando experiências que reafirmem a viabilidade de tais pressupostos em todos os cenários da enfermagem como forma de incremento na qualidade de vida da clientela nos espaços em que se processam as questões de saúde.

Palavras-chave: Promoção da Saúde; Enfermagem; Hospitais

Resumen: El estudio  objetiva identificar la visión del enfermero sobre la promoción de la salud en el contexto hospitalario, contribuyendo para el reflejo sobre las prácticas existentes y la ampliación de las miradas sobre la atención de enfermería en una perspectiva crítica y cambiadora. Se trata de una investigación cualitativa, del tipo descriptiva y exploratoria hecha con enfermeros de un hospital público de la ciudad de Fortaleza (CE). Después de las entrevistas, las informaciones fueron organizadas e interpretadas según el análisis del tema. Los relatos señalaron el predominio de una concepción mayor em la salud. Sin embargo, las estrategias utilizadas por los enfermeros en su práctica hospitalaria aún se quedan centralizadas en la prevención, tratamiento y cura de enfermedades en detrimento de las atenciones integrales voltadas para la promoción de la salud. Por lo tanto, los avances son necesarios para lograr el desarrollo de acciones en la promoción de la salud en los hospitales, contribuyendo al fortalecimiento de los vínculos con el tema de generación de experiencias que reafirman la viabilidad de tales premisas en todos los escenarios de la enfermería como una manera de aumentar la calidad de vida de los clientes en los espacios en que se procesan las cuestiones de salud.

Palabras-clave: Promoción de la Salud; Enfermería; Hospitales. 

Introdução

A promoção da saúde surge como importante modo de reestruturar a atenção à saúde quando busca superar o ideal biológico na relação entre saúde e doença, mediante a proposta do olhar integral sobre o indivíduo, contemplando-o não apenas na instância física, mas também nas esferas sociais, culturais, econômicas e psicológicas1.

A partir da elaboração da Carta de Ottawa, escrita e divulgada amplamente após a 1ª Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde, ocorrida em 1986, a visão de saúde passou a agregar determinantes (justiça social, renda, alimentação, educação, habitação, etc.), tornando-se mais abrangente e complexa1.

O princípio da integralidade, associado aos de humanização e equidade, transformam-se em objetivos da consolidação do Sistema Único de Saúde – SUS e são reforçados na 11ª Conferência Nacional de Saúde, no ano de 20001. De acordo com o relatório final da referida conferência, o que se espera é que a integralidade da atenção dê conta de atender aos problemas de saúde individuais e coletivos, cuidando da qualidade de vida e não apenas do tratamento de doenças.

As práticas voltadas para a promoção da saúde podem e devem acontecer em todos os níveis de atenção, primário, secundário ou terciário, como uma rede de assistência integrada de cuidado das pessoas. Apesar do proposto, as práticas de promoção da saúde nos níveis terciário e quaternário no Brasil ainda são incipientes, e as experiências são pontuais e escassas. Nesses níveis de assistência, as ações de cuidado estão impregnadas pelos referenciais biologicistas de cunho individual e curativo.

A promoção da saúde no contexto hospitalar implica o enfoque do trabalho em equipe para o cuidado de saúde dos usuários, capaz de abranger diferentes perspectivas da assistência, valorizando o papel dos ambientes, da cultura e dos aspectos sociais no processo do adoecimento e sofrimento, preparando-os para o manejo adequado destas demandas.

As maiores dificuldades em desenvolver a promoção da saúde no contexto hospitalar devem-se, em parte, ao despreparo dos profissionais, às resistências dos serviços, à grande carga de trabalho assistencial predominante e à escassa mão-de-obra2. Por outro lado, encontra-se o empenho de alguns profissionais na busca de promover a saúde no ambiente hospitalar, como apontam algumas experiências em que o incremento da qualidade de assistência vem acompanhado da melhoria na adesão aos planos terapêuticos3,4.

Em outros países, há 14 anos, vem sendo desenvolvido o movimento pela implantação de estratégias para a promoção da saúde, por meio da rede internacional Health Promotion Hospital (HPH), criada na Europa, em 19955. A partir desse movimento, o papel da promoção da saúde nos hospitais vem sendo transformado, não estando restrito apenas a fornecer informações adicionais ao usuário acerca do seu estilo de vida, após os procedimentos clínicos terem sido realizados.

A promoção da saúde no hospital defende várias estratégias e direções e encoraja a participação dos usuários, incluindo todos os profissionais de forma a alcançar práticas interdisciplinares condizentes com o paradigma ampliado em saúde e promovendo o desenvolvimento da saúde dentro do ambiente hospitalar5.

            Desse modo, investir na promoção da saúde no ambiente hospitalar significa a transição do modelo então prioritariamente marcado pelo individualismo e voltado para a doença para o paradigma baseado na integralidade do ser, em que os profissionais envolvidos no cuidado interagem com o usuário e sua família, desenvolvendo a escuta dos sujeitos e o compromisso com a qualidade de vida.

O enfermeiro, profissional envolvido no cuidado dos indivíduos, é quem mais de perto vivencia as oportunidades de desenvolver estratégias de promoção da saúde, porque, no ato assistencial, assume inúmeras atribuições complexas e de importante extensão, e ainda lhe cabe o papel de educador em saúde. Assim, além de agir de maneira individual, o enfermeiro tem a possibilidade de interagir com os componentes essenciais no cuidado e manutenção da saúde dos indivíduos, incorporando os familiares e as demais redes de apoio no cotidiano dessas pessoas.

Diante do exposto, o estudo objetiva identificar a visão do enfermeiro de um hospital de ensino sobre a promoção da saúde no ambiente hospitalar, descrevendo o conceito que ele tem e as ações desenvolvidas por ele, condizentes com os preceitos da promoção da saúde.

            É esperado que o estudo contribua para a reflexão sobre as práticas existentes e a ampliação de novos olhares e práticas de cuidado de enfermagem numa perspectiva crítica e transformadora e para o alcance da promoção da saúde em todos os âmbitos da assistência à saúde dos indivíduos. 

Metodologia

            Trata-se de um estudo qualitativo, do tipo exploratório-descritivo. Nesse tipo de estudo, as questões fogem à mensuração de variáveis e integra aspectos relativos aos fenômenos e sua possibilidade de visualização das interfaces envolvidas no processo6.

            Definiu-se como campo de estudo uma instituição hospitalar caracterizada por ser hospital universitário, situado no município de Fortaleza – Ceará; nele, oferecem-se à sociedade 240 leitos de internação, além de diversos serviços ambulatoriais e diagnósticos.  A instituição conta com 149 enfermeiros assistenciais, distribuídos em diferentes setores; destes, participaram da pesquisa 16 enfermeiros. A quantidade foi definida pela saturação teórico-empírica, segundo a relevância dos conteúdos dos discursos e pelas observações, trazendo contribuições significativas e pertinentes ao delineamento do objeto desta pesquisa.

            A coleta das informações ocorreu entre os meses de agosto e setembro de 2008; o projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do hospital e aprovado por esse comitê em julho de 2008 segundo o protocolo No 048.07.08. Aos participantes foram informados os objetivos do estudo, assegurados os direitos e respeitados todos os princípios contidos na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde para realização de estudos com seres humanos7.

Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se o roteiro de entrevista semi estruturado que continha dados de identificação como: idade, sexo, tempo de formação e tempo de atuação na área; com isso almejou-se traçar o perfil do profissional participante do estudo.  A entrevista foi norteada por três questões que diziam respeito ao conceito de promoção da saúde e ao desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde no ambiente de trabalho. As entrevistas foram realizadas nas dependências da instituição, em sala reservada, com duração média de 10 a 15 minutos, havendo, quando apropriado, a inclusão de outros questionamentos que permitissem melhor a apreensão do objeto de estudo. As entrevistas foram gravadas em fita cassete, após a prévia autorização dos informantes.

            Após a coleta, os dados foram organizados e analisados segundo a análise temática6. Cada discurso selecionado foi denominado unidade de análise e examinado criteriosamente de modo a permitir a seleção dos núcleos de sentido, unidades temáticas que resultaram em categorias e subcategorias. Os discursos dos enfermeiros foram identificados pela letra E, seguida do número correspondente à seqüência das entrevistas, por exemplo E1, E2... E16, preservando o anonimato dos participantes. 

Resultados e discussão

Os participantes da pesquisa foram 16 profissionais enfermeiros que desenvolvem atividades assistenciais no hospital em estudo, com distribuição nos seguintes setores: clínica médica (7); centro cirúrgico (1); educação continuada (3); unidade de terapia intensiva – UTI (2); pediatria (1); dermatologia (1); ambulatório de quimioterapia (1). O tempo de atuação na área foi de 03 meses a 24 anos, com a predominância de indivíduos com períodos superiores a 10 anos de atuação na área hospitalar. Entre os sujeitos, 15 são do sexo feminino e um do sexo masculino, com idade variante entre 23 e 50 anos. O tempo de formação oscila entre 04 meses a 24 anos.

A partir da leitura e da análise das falas, surgiram duas categorias; cada uma abrangendo subcategorias: 1) conceito de promoção da saúde; 2) estratégias para a promoção da saúde no contexto hospitalar. 

1.      Conceito de promoção da saúde

Nessa categoria, buscou-se identificar a concepção do enfermeiro da área hospitalar sobre a promoção da saúde. Na Carta de Ottawa, a promoção da saúde é descrita como “o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle desse processo”1:19. A carta enfatiza que, para os sujeitos atingirem o completo bem-estar físico, mental e social, é necessária a identificação de aspirações, a satisfação das necessidades e a modificação positiva do meio ambiente.

Da análise das falas, emergiram duas subcategorias: 1.1. concepção reduzida de promoção da saúde; 1.2.  concepção ampliada de promoção da saúde. 

1.1   Concepção reduzida de promoção da saúde

Percebe-se, entre os discursos, que alguns enfermeiros apresentaram a concepção reduzida de promoção da saúde. Esses sujeitos compreendem a promoção da saúde como a prevenção de doenças, a prestação de boa assistência à saúde e a transmissão de conhecimentos; contudo, sabe-se que a promoção da saúde engloba algo mais abrangente.

[...] são medidas adotadas para prevenir doenças (E2). 

[...] São ações básicas para uma boa qualidade assistencial de cuidados primários e terciários (E15). 

[...] é um ato de transmitir ensinamento [...] (E11). 

A concepção reduzida de promoção da saúde, enfocando apenas nas ações preventivas, foi encontrada também em outros estudos8. Em outro nível de cuidado, ou seja, em unidades básicas de saúde, observa-se que as concepções teóricas e a prática educativa dos enfermeiros são fortemente influenciadas pela concepção teórica tradicional de educação sanitária e pelo modelo biologicista8.

As concepções modernas de promoção da saúde estão voltadas para uma dimensão mais globalizante de saúde; nela estão envolvidos não somente os fatores individuais, mas também os determinantes gerais que colaboram para estabelecer a qualidade de vida: boa alimentação, saneamento do ambiente, boas condições de trabalho, lazer, educação, apoio familiar, integração social, estilo de vida responsável, entre outros9.

Entretanto, em nível terciário, devido ao predomínio da visão sobre a doença nas práticas de cuidado, a aplicabilidade desse referencial mostra-se limitada, predominando o seguimento de normas e rotinas nas estruturas hospitalares. Essas ações são reforçadas pelas condutas profissionais historicamente formadas para responder ao ideal de cura e reabilitação. Com isso, excluem-se as possibilidades de atenção no âmbito de promover a saúde em inúmeras situações; entre elas, está aquela em que a cura não se apresenta como alternativa única a ser alcançada10. 

1.2   Concepção ampliada de promoção da saúde

Um achado importante deste estudo foi que a maioria dos enfermeiros da área hospitalar que participaram da pesquisa manifestou a concepção ampliada de promoção da saúde. Eles compreendem a saúde como um completo bem-estar físico, mental, social e emocional. Visualizam o sujeito integralmente, valorizam a participação desse sujeito, da família, da comunidade e das redes sociais nas decisões em saúde, enfatizando a importância da intersetorialidade e de um ambiente saudável. Observe-se a transcrição dos discursos:

[...] promover estratégias que possam privilegiar a saúde física, mental e social (E1). 

[...] atitudes e atividades desenvolvidas com a finalidade de gerar uma vida saudável, incluindo a educação e a conscientização, assim como atividades essenciais à manutenção da saúde (E7). 

[...] conjunto de idéias, políticas e ações em prol da saúde do indivíduo (E9). 

[...] orientar e agir lembrando do indivíduo, integralmente (E10). 

 [...] é uma junção de várias linhas junto à família, comunidade e escola, traçando metas para manter um ambiente saudável, mobilizando toda a sociedade (E12).

 

Percebe-se na fala dos participantes, a predominância da visão do todo nas práticas de cuidado e na superação da centralidade sobre a doença.

Uma das maiores dificuldades na abordagem da promoção da saúde deve-se à complexidade da questão saúde por ser ela multifacetada, exigindo novos olhares que integrem não apenas aspectos ligados à assistência, mas também a promoção e à prevenção de agravos na perspectiva de usuários, promotores de cuidados e administradores11.

É interessante destacar que os enfermeiros compreendem a importância da participação comunitária, da mobilização da sociedade para o desenvolvimento das ações de promoção da saúde e da necessidade de atuar com vistas à conscientização dos sujeitos, tal atitude é percebida com maior freqüência, nos serviços de atenção primária em saúde.

Na I Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, ocorrida em Ottawa, Canadá, no ano de 1986, é frisado o valor da responsabilidade social com o “empoderamento” da população e o aumento da capacidade da comunidade para atuar no campo da promoção da saúde1. Desse modo, existe, entre os participantes, a compreensão da necessidade de agregar novas perspectivas nos cuidados aos usuários nesse contexto.  

2.      Estratégias de promoção da saúde no contexto hospitalar

            A categoria em questão evidencia como o enfermeiro vislumbra, a partir de sua iniciativa e da equipe de enfermagem, práticas de promoção da saúde no ambiente hospitalar. As concepções são variadas e referem-se às seguintes subcategorias: 2.1. atenção voltada para a prevenção de agravos, tratamento e cura das doenças; 2.2. promoção da saúde com enfoque nos trabalhadores e nos usuários; 2.3. promoção da saúde com enfoque na educação em saúde (na equipe/usuário) e 2.4. inviabilidade de ações de promoção da saúde.

Entre os sujeitos, dois participantes não responderam à questão proposta. 

2.1 Atenção voltada para a prevenção de agravos, tratamento e cura de doenças

            Os modos de efetivar a promoção da saúde no hospital por meio da iniciativa dos enfermeiros direcionam-se predominantemente para os procedimentos de cuidados da equipe em relação à capacitação, controle de infecções, habilidades técnicas e elaboração de planos integrados. Nas falas, não há a inclusão do usuário nas práticas de cuidado.

[...] lutando para melhorar as condições de trabalho, através de materiais para proteção individual e coletiva (E12). 

[...] através de técnicas corretas de punção venosa; orientação com relação à higienização das mãos e uso de máscaras (E2

[...] através de educação continuada em serviço quanto ao uso de EPI’s; orientações aos pacientes e acompanhantes sobre medidas de prevenção de doenças (E6). 

[...] Estudo de casos pela equipe multidisciplinar; implementação terapêutica medicamentosa, de enfermagem, ocupacional e psicológica (E10) 

A prática de promoção da saúde prioritária no ambiente hospitalar converge para ações centradas nos indivíduos e voltadas à orientação do trabalho desenvolvido pela equipe de enfermagem na prestação de cuidado ao usuário. A preocupação do enfermeiro concentra-se no desenvolvimento de tarefas, técnicas apropriadas para o desempenho do cuidado voltadas para a criação de barreiras de contato entre a doença e os indivíduos susceptíveis.

            A formação dos profissionais de saúde e dos enfermeiros direciona-se sobretudo nos aspectos biológicos e está centrada na prevenção, tratamento e cura das doenças. No ambiente hospitalar, portanto, existe a crença prevalente no modelo biomédico, que exclui a possibilidade de desenvolvimento de ações de promoção da saúde, baseada no bem-estar e na construção da autonomia do sujeito para participação ativa nos cuidados de seu estado de saúde11.

            Pode-se observar que uma das concepções existentes sobre o desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde no cenário hospitalar ainda se aplica à prevenção de agravos, tratamento e cura de doenças. Apesar de uma das diretrizes da Carta de Ottawa apontar para a reorientação dos serviços de saúde para a promoção da saúde1, verificou-se que o modelo assistencial médico-centrado ainda é predominante. 

            A preocupação dos enfermeiros em prover profissionais e usuários de saberes e ferramentas que os levem à prevenção de doenças ou à adequada implementação de terapêutica é confundida com o verdadeiro sentido da promoção da saúde no hospital, ou seja, o encorajamento do usuário para participar do seu próprio cuidado; no entanto, cabe ao profissional de saúde compreender as necessidades do paciente, sua cultura, a fim de percebê-lo de maneira integral5,12.

Embora as condutas apresentadas estejam corretas, há necessidade de ampliar a visão do cuidado com o objetivo de estabelecer uma relação com o usuário que está sendo assistido e a sua família. Dessa forma, possibilita-se o desenvolvimento da autonomia do usuário para que possa participar do seu próprio cuidado e assumir um estilo de vida saudável, mesmo no ambiente hospitalar, preparando-se para a alta e a inserção social. 

                  2. 2 Promoção da saúde com enfoque nos trabalhadores e nos usuários

            Ainda que as ações concentrem-se no modelo com ênfase nos agravos, das falas emergem práticas que preconizam a promoção da saúde em sentido ampliado, incorporando os sujeitos envolvidos no processo de cuidado, isto é, usuários, equipe de enfermagem e demais membros da equipe de saúde, e  resgatando a humanização.

[...] desenvolvimento de relacionamento terapêutico profissional-cliente, controle de infecção hospitalar, humanização da assistência, valorização dos profissionais (E6)..

[...] acolhimento para amenizar o trauma da internação; conhecer a história buscando elaborar um plano de cuidados assistencial dentro das necessidades, limitações e queixas reconhecidas; trabalho em equipe multidisciplinar; o funcionário é orientado quanto ao [...] ambiente de boa convivência (E10). 

[...] lutando para melhorar as condições de trabalho [...] mantendo ambiente agradável, mesmo com grande potencial de estresse, promovendo momento de lazer para a equipe (E12). 

[...] cuidado individualizado de acordo com a necessidade mas respeitando sempre a igualdade, segurança na assistência prestada, vínculo estabelecido entre o serviço e o paciente (E14). 

[...] admissão do paciente de forma técnica e acolhedora pela equipe de enfermagem (E10). 

Ressalta-se que existe o conhecimento por parte de alguns enfermeiros sobre o verdadeiro significado da promoção da saúde e a possibilidade de sua aplicação no contexto hospitalar como também uma preocupação em desenvolver ações que ultrapassem o sentido restrito do tratamento de doenças.  O processo de admissão parece ser mais humanizado, combinando o normativo ao subjetivo; nesse processo o usuário tem uma identidade e necessidades especificas, que são reconhecidas e, na medida do possível, atendidas. O acolhimento como estratégia para uma atenção mais humanizada, é valorizado.

            O acolhimento e o vínculo estão entre os pontos positivos do SUS e permitem que se desenvolva confiança entre usuários e profissionais, aumentando, assim, a eficácia nas ações assistenciais e educativas3,13.

            A preocupação com o bem-estar dos profissionais que atuam no ambiente hospitalar também constou das falas dos enfermeiros como medida de promoção da saúde. Um dos focos da promoção da saúde no ambiente hospitalar, segundo as diretrizes do gabinete europeu de serviços integrados de saúde da Organização Mundial de Saúde, é o trabalhador, promovendo um ambiente de trabalho seguro e saudável, oferecendo desenvolvimento e capacitação do pessoal em promoção da saúde ou implementando uma política de saúde ocupacional14.

             Atuar segundo o referencial da promoção da saúde implica ações como o envolvimento dos usuários para que possam intervir ativamente no controle da sua saúde. Preconiza-se a existência de ambientes saudáveis e favoráveis ao alcance da qualidade de vida por meio de ações humanizadas que promovam acolhimento e vínculo que sejam sensíveis às necessidades e individualidades dos usuários dos serviços e que permitam o direcionamento de medidas que proporcionem cuidados integrais1,2.

A promoção de saúde integrada ao cuidado de enfermagem no contexto hospitalar não deve ser vista como uma ação individual ou de grupo, mas como uma política institucional. As ações voltadas para a promoção da saúde devem voltar-se para o ambiente de trabalho, englobando os componentes da equipe de saúde e aqueles que são atendidos, proporcionando acréscimo na qualidade de vida e de trabalho para os profissionais de saúde bem como uma assistência de qualidade para as pessoas assistidas15. A ênfase é dada à corresponsabilidade dos profissionais dentro do processo de promoção da saúde, envolvendo ações individuais que caminhem nesse sentido e ações coletivas que integrem gestores, usuários e corpo de profissionais16. 

                  2.3 Promoção da saúde com enfoque na educação em saúde (da equipe e do usuário)

Ao profissional de enfermagem cabe, além da assistência pela implementação de técnicas e procedimentos que proporcionem atenção e conforto à clientela, a execução de práticas de educação em saúde capazes de abordar aspectos que proporcionem a continuidade da assistência não apenas no âmbito hospitalar, mas também na rede ampliada de atenção à saúde. Desse modo, é destacada, nas falas, a promoção da saúde utilizando-se como ferramenta, a educação em saúde.

[...] ações de prevenção, cursos de capacitação, valorização a saúde mental com eventos sociais e premiações (E3). 

[...] através de palestras, que visam orientar os indivíduos comportamentos positivos (quero dizer, ações que favoreçam o bem-estar físico, psíquico, comunidade) (E4). 

[...] elaborando [...] educação em saúde dando ênfase a educação permanente da equipe – aplicando no dia a dia junto a clientes (E5). 

[...] através de orientações aos funcionários relacionadas às atividades desenvolvidas na unidade e orientações aos pacientes para que possam se conscientizar quais as maneiras mais adequadas de manutenção da saúde (E7). 

As ações de cunho educativo são capazes de conferir autonomia e “empoderamento” a usuários diante das situações de adoecimento para que intervenham, segundo as potencialidades, no alcance de maior de qualidade de vida. Assim, usuários dos serviços, familiares, profissionais, entre outros sujeitos são envolvidos; isso estabelece objetivos em comum que podem ser alcançados16.

            Para que a educação em saúde seja um elemento de promover saúde, é necessário que incorpore elementos da realidade a partir da problematização. Esses conceitos opõem-se às práticas verticalizadas e guiadas pelos conhecimentos dos profissionais sobre a doença, ainda predominantes nesse campo. Nessas práticas, persiste a visão de que o sujeito é passivo e de que se faz necessário o profissional trazer o “pacote” pronto a ser incorporado, assimilado pelo indivíduo, para mudança de comportamento e adequação a um estilo de vida saudável, imposto de acordo com a concepção do profissional de saúde.

Esse enfoque de educação e prevenção baseia-se na prescrição de conduta, na qual o usuário sai da unidade com a prescrição de mudança de hábito a ser implementada em seu cotidiano, sem levar em conta seus valores e seu modo de viver. Não prevê ainda a participação ativa dos usuários na construção de projetos de cuidados.

Observou-se que não são considerados os fatores internos aos indivíduos, nem uma série de questões externas a estes como os fatores socioculturais, os ambientes em que se desenvolvem as relações de saúde, que acabam por interferir nos modos como o usuário evolui diante de um dado agravo.

No caso de os participantes informarem uma prática educativa com ênfase na transferência do conhecimento desconsiderando o saber os usuários, tais fundamentos se desviam do que hoje é preconizado como “empoderamento” e autonomia dos usuários. Tem-se reconhecido que muitas das práticas educativas desenvolvidas por enfermeiros enfocam a prevenção de doenças, sem incorporar a compreensão dos fatores determinantes dos problemas de saúde ou as necessidades e saberes da população trabalhada17.

No processo educativo, é útil a inclusão do sujeito a partir da problematização e reflexão sobre suas condições de vida e da percepção da necessidade de mudança de comportamento ou não. Dessa forma, ele atua de maneira consciente e autônoma, em sua condição de vida e gera uma maior participação nas intervenções em saúde18. 

                  2.4 Inviabilidade de ações de promoção da saúde

            Conforme se examinou, apenas três entrevistados relataram que o ambiente de trabalho onde atuam, ou seja, no cenário hospitalar, não se viabiliza a adoção de ações voltadas para a promoção da saúde.

[...] Como o ambiente que eu trabalho não me oferta essa promoção a saúde, fica difícil desenvolve-la (E1). 

 [...] Não é do meu conhecimento que seja feita essa promoção a saúde no meu local de trabalho (E5). 

[...] Não existe na área assistencial nenhum trabalho com o objetivo de promoção da saúde do trabalhador (E16).                 

            Apesar do preconizado para as ações de cuidado, ainda há resistência por parte dos profissionais, gestores e instituições em acolher o referencial de promoção de saúde. Parte disso deve-se às dificuldades enfrentadas na rotina dos serviços, isso leva à descrença nas possibilidades de intervenção que foge aos parâmetros já instituídos.  

Considerações finais

De acordo com os resultados apresentados, observou-se que ainda há muito a avançar para alcançar-se o desenvolvimento da promoção da saúde no contexto hospitalar, visto que a idéia do modelo biomédico, hegemônico, centrado na doença é o que permeia as práticas de saúde instituídas no cuidado ao cliente.

Das concepções de promoção da saúde dadas pelos enfermeiros emergiram conceitos que variavam da visão reduzida até a visão ampliada de promoção da saúde, havendo o predomínio de aspectos de atenção integral em saúde.

Apesar de as respostas apontarem para propostas mais abrangentes para a promoção da saúde, as estratégias apresentadas pelos enfermeiros focalizaram-se em ações tendentes à prevenção, ao tratamento e à cura das doenças, deixando à margem aspectos subjetivos e individuais que poderiam ser incorporados ao plano de cuidados. Ainda assim, alguns enfermeiros citam atividades voltadas para aspectos amplos de atenção, abordando não só o usuário do serviço mas também todos os sujeitos que se envolvem-se na assistência:  os familiares, a comunidade, a equipe de enfermagem e demais profissionais de saúde.

Os profissionais de enfermagem vislumbram também a promoção da saúde em atividades de educação em saúde, para os usuários e os trabalhadores de saúde. Deve-se repensar, no entanto, o formato no qual ela vem sendo realizada, ou seja, pela verticalidade das ações, a transmissão de conhecimentos ou sobre um enfoque que preconiza a autonomia e a inclusão daqueles que participam do processo.

É preciso ainda refletir sobre a formação do enfermeiro e as práticas vivenciadas nos cenários de cuidado de enfermagem no contexto hospitalar, de modo a conformá-las com os paradigmas atuais da promoção da saúde, propensas a uma visão integral do sujeito, inserido-o em um contexto dinâmico, onde ele possa participar ativamente da construção de seu projeto de vida saudável.

Assim, estar-se-á contribuindo para o fortalecimento dos vínculos com os sujeitos pela melhor participação deles nos seus processos de vida e na sua melhor habilitação diante da relação entre saúde e doença, além dos ganhos relativos à estruturação dos serviços de saúde, gerando experiências que reafirmem a viabilidade da promoção da saúde em todos os cenários da Enfermagem, como forma de incremento da qualidade de vida da nossa clientela e dos espaços em que se processam as questões de saúde. 

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16.   Campos RTO, Campos GWS. Co-construção de autonomia: o sujeito em questão. In: Campos GWS et al. organizadores.  Tratado de saúde coletiva. São Paulo: HUCITEC; 2006. p. 669-88. 

17.   Acioli S. A prática educativa como expressão do cuidado em Saúde Pública. Rev Bras Enferm. 2008; 61(1):117-21. 

18.   Freire P. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1997. 

 

Nota: Artigo desenvolvido na Disciplina “Enfermagem e as Bases Teóricas da Promoção da Saúde” do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Contribuição dos autores: Pesquisa bibliográfica: Joyce Mazza Nunes, Álissan Karine Lima Martins, Maria de Fátima Bastos Nóbrega – Coleta de dados: Joyce Mazza Nunes, Álissan Karine Lima Martins, Maria de Fátima Bastos Nóbrega - Concepção e desenho: Joyce Mazza Nunes, Álissan Karine Lima Martins, Maria de Fátima Bastos Nóbrega, Ana Fátima Carvalho Fernandes – Análise e interpretação: Joyce Mazza Nunes, Álissan Karine Lima Martins, Maria de Fátima Bastos Nóbrega, Ângela Maria Alves e Souza, Ana Fátima Carvalho Fernandes, Neiva Francenely Cunha Vieira - Escrita do artigo: Joyce Mazza Nunes, Álissan Karine Lima Martins, Maria de Fátima Bastos Nóbrega – Revisão Crítica do artigo: Ângela Maria Alves e Souza, Ana Fátima Carvalho Fernandes, Neiva Francenely Cunha Vieira - Aprovação final do artigo: Joyce Mazza Nunes, Álissan Karine Lima Martins, Maria de Fátima Bastos Nóbrega, Ângela Maria Alves e Souza, Ana Fátima Carvalho Fernandes, Neiva Francenely Cunha Vieira.

Endereço para correspondência: Joyce Mazza Nunes – Rua Escrivão Azevedo, 811, Apto 208, Cidade dos Funcionários, Fortaleza – CE - CEP 60822520. E-mail: joycemazza@hotmail.com.





 

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